Viver em outro país é, antes de tudo, um exercício de humildade, nos menores detalhes. Você acha que ir ao supermercado no Brasil é igualzinho a fazer compras na Holanda? Pensa que, em todas as casas do mundo, os banheiros têm ralo? Pois eu vou lhe contar que não, companheiro(a). Portanto, antes mesmo de morar fora de sua pátria, reconheça: Papai Noel não existe, o Coelhinho da Páscoa também não e você sabe muito menos do que imagina. O óbvio muda de acordo com a cultura, não parece óbvio? Pois muitas vezes não é...
Minha história com a Holanda é uma história de amor: meu noivo mora aqui, por isto tenho vindo tantas vezes quanto o doutorado – e o orçamento – têm permitido. Os fatos que vou narrar são absolutamente verídicos, pobre de mim. Espero que sirvam para consolar e divertir muita gente que já passou ou vai passar por situações parecidas. Também pretendo mostrar aspectos diferentes da Holanda em relação ao Brasil: as paisagens, os animais, as bicicletas, que são um capítulo à parte... Sugestões sempre são muito bem-vindas.
No supermercado
Os primeiros dias em um país estrangeiro não são fáceis. A gente sabe que não é dali, ainda não sabe se encontrar na cidade em que está... Pouco a pouco, a gente vai se acostumando à nova realidade e vai ficando mais à vontade.
Enfim, chegou aquele dia especial em que eu, me sentindo em casa, decidi ir ao supermercado. Afinal, ir a restaurante todo dia é coisa pra turista e comer em fast food a semana inteira é só pra documentarista. Armei-me de coragem, cheguei lá e comecei a fazer as compras.
O que buscar primeiro? Hum, que tal legumes, frutas e verduras? Na Holanda, você vai encontrar muitos ilustres desconhecidos, antes de avistar o alface ou o tomate. Procurando por bananas ou mangas? Aqui vai um conselho de pai para filho caçula em dia de aniversário: coma frutas tropicais no Brasil e, na Holanda, procure pelas de inverno. Mas o mais importante de tudo: atenção à balança para pesagem. Além de você escolher, nela, o que vai pesar, é preciso apertar outro botão, em seguida, para confirmar a sua escolha. Só então sai a bendita etiqueta com o código de barras...
Eu, marinheira de primeiríssima viagem, fiz a minha primeira opção (cebolas) e fiquei lá, esperando a máquina trabalhar sozinha, como é no Brasil, afinal. E a fila de gente atrás de mim só crescendo... Até que uma simpática senhora – coincidentemente, a próxima da fila – se apiedou de mim e apertou o danado do botão que eu nem tinha visto. Sabe o que estava escrito nele? “Bon”. Bom pra quem, meu Deus?? (só um esclarecimento: “bom”, em holandês, é goed.)
Procurando por produtos de limpeza? Aqui vai mais um conselho: escolha um cujo rótulo contenha figuras. Afinal, nunca se sabe a quantidade de consoantes que podem existir em uma mesma palavra, tampouco o tamanho ou o significado que esta palavra tem. Cuidado para não levar lustra-móveis para limpar o seu banheiro, por exemplo.
Mas, felizmente, no meu caso, esta fase já está passando – estou mais atenta às figuras, afinal.
Até a semana que vem.
Grande abraço!
Comente aqui: