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Johannes Goes, holandês, morou 15 anos no Brasil (Rio, Belo Horizonte, Salvador e Fortaleza). Ensinava Inglês. Escreve por prazer, também autor e produtor de um Curso de Inglês de Conversação Prático. Casado com uma brasileira, 3 filhos e uma neta , mora no Algarve, Portugal.


Amor sem "inburgering" - O Noivo Finlandês

John Goes

 

Ela tinha encontrado o seu Finlandês na comunidade “Foreigners love Brazil” da internet . Logo quando o conheceu, largou o holandês, com quem tinha se comunicado já por alguns meses e o deixou falando sozinho. O negócio com o holandês até tinha começado a ficar sério, ao ponto de ter proposto a um senhor holandês, já de idade, de quem cortava o cabelo e aparava o bigode no salão unisex, para este lhe dar aulas daquela língua. Proposta esta que teve por base a aparente necessidade de prestar um exame de conhecimentos de holandês no consulado em Botafogo se um dia quisesse morar naquele país.

Após algumas aulas achava que nunca, mas nunca, ia poder falar uma língua tão feia, cheia desses gggggggghhhhhhr’s. Só o nome do exame
“Inburgghhrrrrrring” era já razão suficiente para qualquer um desistir e
mandar as exigências do governo Holandês às favas.

Não ela, com o lema “amor verdadeiro” vence todos os obstáculos foi
gargarejando aquela língua danada até ter bolhas na garganta. Entretanto uma noite quando o “seu holandês” não estava “on-line”,
foi entrando e visitando diversas outras comunidades no Orkut. Foi aí que viu o retrato do finlandês. O seu coração foi logo lhe dizendo que este sim e não o holandês Geert de Groot, mas este era o homem da sua vida. Estivera ela enganada este tempo todo.

Alto, louro, forte, solteiro, 33 anos e engenheiro agrônomo, funcionário do Ministério da Agricultura no seu país, usava uns óculos de armação grossa e tinha um bigode bem grande. Uma beleza de homem. Um pão! E que bigodão! Homem de bigode era com ela.

O nome dele é que era meio complicado: Einojuhani Alakalhunmaa
entretanto não tinha nenhum gggrrrrh no meio, “gghhrraças a Deus”, dizia ela para si mesma.

Infelizmente o velho, seu professor de holandês, não sabia patavina de Finlandês e ela não fazia a mínima como se pronunciava o nome daquele que ela já chamava para se de “ o meu amor”.

Logo, logo começaram a comunicar-se em Inglês, uma língua com a qual ela se dava cada vez melhor, embora se tivesse que falar, falar mesmo não lhe saía nada: tinha um tipo bloqueio. Não passava de: tank you, auáyu e goodchi morningue. É que ela não tinha ninguém com que praticar mas sabia se for o caso ela aprenderia logo quando tivesse uma oportunidade de estar exposta à língua falada.

Solange, assim se chamava, além de ser uma mulata monumental e tanto, não era burra não. Conversa ia, conversa vinha pelo correio eletrônico, chegou a hora de se conhecerem pessoalmente.

Escreveu ele: - Como um rio tem que correr para o mar, você há de vir
correndo para os meus braços.

Respondeu ela: - Você é o meu destino. O dia virá em que eu me entregarei todinha p’ra você. Será quando você cobrir o meu corpo com os seus beijos. Serei como uma flor que se abre quando for beijada pelo sol.” Ela gostou muito desta sua frase com a flor: com certeza agradaria a um engenheiro agrônomo.

Que agradou, agradou. Logo ela foi informada que podia ir à KLM na Avenida Rio Branco e apanhar um bilhete Rio-Amsterdam – Helsinque, ida e volta. Dava ela pulos de alegria. Ia conhecer o país dos 300.000 lagos ou eram 30.000? Eram muitos, isto sabia ela, também ia conhecer o bangalô que o homem tinha à beira de um destes lagos, bangalô este, que tinha uma sauna e donde era costume saltarem-se pelados na neve. “ Em Roma se faz como os Romanos”, pensou ela e foi tratar do seu passaporte.

Nunca tinha voado antes e gostou. No aeroporto de Amesterdã teve que mudar de avião e logo na sala de espera para o vôo à Helsinque, viu mais umas 5 conterrâneas, todas mulatas, empetecadas, de corpos esculturais, e como manda o figurino, todas muito assanhadas no jeito
de falar e de andar. Viajaram com ela no avião que vinha do Rio e viu agora que elas também íam à Finlândia. Claramente bastante exaltadas, faziam uma algazarra, já que o fim da viagem estava perto. No vôo para Helsinque uma delas se sentou ao seu lado e aí ficou sabendo que esta, tal como ela, também ia de encontro a um homem que nunca viu mais gordo antes. Ainda ficou sabendo que ela usava o mesmo líquido para alisar o seu cabelo, que, nem o dela, era “ruim como o diabo”.
Falaram-se ainda da preocupação de chegar lá e não entender nada do que os “seus homens” diziam. Estavam de acordo que a língua finlandesa devia ser fogo. Disse à Solange: “ Nem sei como pronunciar o nome do meu. Tem um nome comprido e complicadíssimo. Vou chama-lo de “ my luvey “ por enquanto.
“Ah, o do meu é fácil “ É Karl”, dissera a sua companheira de viagem.

No desembarque na Finlândia a mala da Solange foi uma das últimas a aparecer e ela teve receio de tê-la perdido. Quando finalmente chegou na alfândega, no controle de passaportes para “Cidadãos – Não – UE ”, se viu alarmada que aparentemente a sua companheira estava sendo
barrada de entrar, pelo menos estava sendo interrogado por dois homens de uniforme com cara de poucos amigos. Deu uma tremedeira nela.
“Ai, se não me deixem entrar. São Judas Tadeu me acuda. “

Solange entregou junto com seu passaporte uma carta em papel timbrado do Ministério Finlandês de Agricultura na qual ela sabia que o seu Einojuhani declarava que ela, Solange, vinha em visita e que ele se responsabilizava por ela no que desse ou viesse. Depois do funcionário passar os seus olhos no documento, carimbou, sem mais perguntas, um visto válido por 3 meses.

Empurrando a sua mala para a sala de desembarques, veio ele logo com aqueles óculos grossos, aquele bigode e um grande sorriso para ela e já de braços abertos.
“Olhe o safado”, teve tempo de pensar, ”Mandou um retrato do quando ele era bem mas moço”. Assim como ela já tinha imaginado inúmeras vezes, jogou-se nos braços dele dizendo-lhe: Oh, my luvey, oh my luvey”. O homem começou a dizer “Oh, my darling, oh, my darling” e depois disse mais um monte de coisas que ela não entendia mas respondia com um imenso sorriso, mostrando bem os belos dentes que tinha.

Ele carregou a mala dela até o carro dele. Foi pela primeira vez na vida que ela viu neve e sentiu um frio danado. Já não tinha certeza agora se essa de pular na piscina, na neve, pelada, depois duma sauna era idéia
que lhe atraía.
“Só doido mesmo,” pensou. Tinha saído do Rio com 45º C “no asfalto” na avenida Brasil. Observou que o homem tinha boas maneiras, já que foi abrir e fechar a porta do carro para ela.
“Tank you”, ela disse, sempre sorrindo.

Chegando no apartamento dele, teve pouco tempo de o apreciar. Notou que estava uma temperatura bem agradável e que tinha televisão tela plasma. É que o homem foi logo agarrando e levando-a para o quarto, falando coisas de amor em finlandês, presumia ela, já que vinha misturado com muitos “ my darling” no meio e, enquanto descobria freneticamente o belo corpo dela, arrancando-lhe a roupa toda, cobrindo-o, desnudo, com beijos.

Em menos de uma hora após a sua chegada em Helsinque, cumpriu a sua promessa de fazer amor com ele pela primeira vez. Em menos de uma hora e trinta e cinco minutos cumpriu pela segunda vez e em duas horas e dez pela terceira.
“Coitado,” pensou ela “O cara estava precisando mesmo. Mas pelo menos é homem”.

Após dessa agitação toda e ele bem mais calmo, ela ainda deitada por debaixo dele, olhando para o teto e passando os seus dedos pelos cabelos louros dele, tentou experimentar dizer o seu nome e murmurou: “Oh, my Einojuhani”.
O homem, meio exausto, arranjou forças para levantar a sua cabeça e olhando seriamente nos olhos dela, disse:
“Karl, my name is Karl.”

© John Goes, November, 2006

 

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