Faça do Brasileiros na Holanda a sua página inicial
Anuncie Aqui Anuncie Aqui
logo banner
 Clima   Traffic  moeda positivo Como anunciar
setinha Aprenda Holandês
setinha Classificados
setinha Como chegar
setinha Entrevistas
setinha Ferias escolares
setinha Forum de discussão
setinha Indique o site
setinha Integração Civil
setinha Livro de visitas
setinha Missas em português
setinha Promoções telefônicas
setinha Revista
setinha Turismo
setinha Viagem de menores
setinha Vídeos
Press award

COLUNAS
Entrevistas - Neste espaço publicaremos entrevistas com brasileiros na Holanda e também com holandeses no Brasil.
 
Embaixador Gilberto Saboia
 
Data: 04/05/2005
 

Perfil

 

Texto: Arnild Van de Velde
Fotos: Marcia Curvo




Na altura exata de seu número 19 – um casarão de esquina, onde, na Haia, está situada a Embaixada do Brasil - a rua Mauritskade forma, com a vizinha Parkstraat, um cruzamento pelo qual, o tempo todo, passam dezenas de pedestres, ciclistas, motoristas e ainda bondes e ônibus que servem à região. Em dias como a terça-feira, por exemplo, a barulheira pode ser pior, quando guardas de trânsito holandeses fazem um treinamento de rotina, bem debaixo das janelas do gabinete do embaixador, o carioca Gilberto Vergne Sabóia, que completa 63 anos em maio. Pouco menos ensurdecedora do que o apitar semanal dos "trainees", é a passagem das carruagens que transportam os colegas de cargo de Sabóia, ao palácio real – quando vão apresentar as credenciais diplomáticas à Rainha Beatrix – a alguns quilômetros dali.

 

A inquietação do exterior, no entanto, parece não incomodar o embaixador do Brasil. É a " própria calma em pessoa" que nos recebe ali, em sua sala ampla e de pé-direito alto, enquanto lá fora, as vozes de passantes e os sons das buzinas e sirenes compõem uma orquestra irritante. Sabóia, alheio ao ruído, demonstra um autocontrole e uma concentração admiráveis. Talvez trazidos de berço, talvez adquiridos ao longo dos vários anos em que, a serviço do Itamaraty, esteve em Genebra, na Suíça, país conhecido pela fleuma de seus cidadãos.

Genebra é ainda a cidade onde moram suas duas filhas – o filho, também diplomata, vive em Brasília – todos três do casamento com a também carioca Maria Helena Paes Sabóia, que o acompanha na missão atual, iniciada em agosto de 2003. O casal está instalado na residência oficial da Embaixada, em Wassenaar – endereço do herdeiro da coroa holandesa, príncipe Willem Alexander e sua esposa, a princesa Máxima. A mansão é servida por quatro empregados: um casal boliviano, um argentino e uma brasileira. "Não tenho do que me queixar", constata o embaixador , num momento de descontração.

Encontro com a realidade

Em julho de 2000, Gilberto Sabóia foi nomeado secretário de Estado de Direitos Humanos, cargo que ocupou por 18 meses. A indicação o colocou, pela primeira vez, diante do desafio de desempenhar uma função de natureza política. Durante o período, precisou tanto das habilidades diplomáticas quanto da capacidade de ignorar transtornos, para lidar com os melindres do posto. "Passei de mediador a provedor de soluções", diz. No cargo, deu continuidade à implementação do Programa Nacional de Direitos Humanos, considerado um dos projetos mais ambiciosos do governo brasileiro; bem como coordenou, como Presidente do Comitê Nacional, a preparação brasileira à III Conferência Mundial contra o Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlata, realizada em Durban (África do Sul), em 2001. Entre outras realizações, preparou o lançamento da Campanha Nacional contra a Tortura e deu seguimento ao fortalecimento do Provita, Programa Nacional de Proteção à Testemunha e Vítimas de Crime. De volta ao Itamaraty, ocupou o cargo de Subsecretário-Geral para Assuntos Políticos onde lhe coube conduzir numerosas consultas bilaterais e, já no atual Governo, a coordenação do Grupo de Amigos da Venezuela.

Comércio Brasil-Holanda

Os meses na Secretaria de Direitos Humanos trouxeram ainda um benefício a Gilberto Sabóia, que servira, por último na Suécia, antes da temporada na Capital Federal. Desde então, sente-se mais confortável para representar o Brasil quando o assunto envolve os problemas do país. Em contrapartida, não esconde o orgulho ao anunciar o balanço atual das exportações brasileiras para a Europa, através do Porto de Roterdã – na casa dos 6 bilhões de dólares. O montante corresponde à soma das receitas de produtos diversos, tais como carne, suco, frutas e flores. A Holanda tem estado entre os quatro países que mais investem no Brasil, com destaque para as áreas de tecnologia elevada setor eletrônico, químico e bancos.

Apesar de alto como um atleta das quadras, o embaixador é cinéfilo e nunca foi dado a praticar esportes. Prefere acompanhar seu time de coração, o Flamengo, pela TV. Em dia bonito, passeia de bicicleta por Wassenaar. "Como bom carioca, eu gosto é de praia", confessa. O lazer, na fria costa holandesa, é quase inacessível. Senão pela paisagem, os Países Baixos conquistaram-no pela culinária: Sabóia experimentou e aprovou o tradicional Haring - arenque cru, salgado e envolvido numa camada de cebola crua (deve ser comido assim). "Acompanhado de uma cerveja, é uma delícia", diz e surpreende, já que a maioria dos estrangeiros desaprova o tira-gosto. A seguir, trechos da entrevistado embaixador, também autor de artigos sobre a implantação do Tribunal Penal Internacional (TPI) e representante permanente junto à Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPAQ) a este site, no início de abril.

Avdv – A Embaixada Brasileira, aqui na Holanda, tem estado muito atenta à exploração do turismo sexual, por holandeses, lá no Brasil. Que tipo de ações envolvem essa atenção?

Gilberto Saboia – A Atividade econômica do Turismo tem aumentado de maneira exponencial. Aqui na Embaixada estimulamos e promovemos o turismo mas estamos atentos também para os aspectos negativos que esta expansão pode apresentar. e procurado desestimular as atividades de empresas de charters que trabalham como o chamariz do turismo sexual. Neste sentido, nos associamos às iniciativas da Ecpat, uma ONG(baseada na Austrália, nota da Red.) internacional bastante atuante no combate à exploração sexual, prostituição e tráfico de crianças. A organização elaborou um código de conduta e o que tentamos é convencer operadores de turismo que trabalham com o Brasil a seguir as orientações do código.

Avdv - E isso tem funcionado?

Saboia - De alguma maneira sim. Houve uma operadora que foi considerada 'pouco cooperativa' e teve suas atividades suspensas pelas autoridades brasileiras.

Avdv - Como se chega às denúncias a respeito destas operadoras?

Saboia – As secretarias estaduais de turismo geralmente exercem um monitoramento do desembarque e da programação dos turistas em geral, tanto brasileiros como estrangeiros, e dos passageiros de charters, em particular. A coordenação das ações é feita, em nível nacional, com a Embratur e o Ministério do Turismo. Recentemente, em dezembro de 2004, o Brasil promoveu uma discussão aprofundada sobre o combate à exploração sexual de crianças e adolescentes no contexto do turismo, no âmbito do Fórum Mundial do Turismo Sustentável, realizado na Bahia.

Avdv - Em contrapartida, empresas holandesas estão investindo no Brasil.

Saboia – A Holanda está posicionada entre os quatro primeiros países que investem no Brasil. São mais de cem empresas de capital holandês, das áreas de tecnologia elevada, eletrônica, petróleo, comércio e bancos. O "Rabobank International", por exemplo, anunciou, agora em abril, um investimento de grande porte (US$ 150 milhões) na área da Agricultura de ponta, com a abertura de 25 agências do banco em estados estratégicos para o setor. A decisão do banco partiu do sucesso de um projeto-piloto levado a cabo nos estados da Bahia, Goiás e Minas Gerais, isto é salutar. Na mão contrária o Brasil exportou, via Roterdã, seis bilhões de dólares em produtos como o suco de laranja – a Cutrale tem ali um terminal só para isso – flores tropicais, do Ceará, carne bovina, frutas, como a manga, da Bahia, que vocês anunciaram no site.

Avdv - O senhor foi secretário de Direitos Humanos do governo brasileiro. A experiência valeu a pena, seria capaz de repeti-la?

Saboia – Foi uma experiência ímpar. Não sou político e me vi à frente de um posto de natureza política, o que é bastante delicado para quem não é ligado a um partido. No campo dos Direitos Humanos existe, no Brasil, uma 'rede' de pessoas e instituições – governos municipais e estaduais – que, independentemente da conotação partidária, consideram trabalhar conjuntamente a favor dos Direitos Humanos. Não sei se repetiria, mas se o fizesse me cercaria de algumas garantias.

Neste tipo de posto o acesso direto ao Presidente da República é essencial para superar as dificuldades no terreno político.

Avdv - Como se aplicam as regras dos Direitos Humanos no Brasil?

Saboia – Não se aplicam de maneira completamente satisfatória, nem igualmente em todos os lugares. Há uma grande desigualdade nos diferentes estados da Federação, na compreensão do que são a democracia, o estado de direito, como a lei deve ser aplicada. Outra coisa é o acesso à Justiça por parte de todos. As regras são desigualmente percebidas ou experimentadas em diferentes áreas. Isso é compreensível do ponto de vista histórico, pelas diferenças no grau de desenvolvimento político e econômico das regiões. Não se trata, porém, de um determinismo: encontramos práticas de violação dos Direitos Humanos mesmo em regiões onde o avanço é maior. A sociedade e os meios de comunicação brasileiros estão cada vez mais alertas para estas questões, o que é positivo.

Avdv – Abordando o tema igualdade social - o controverso sistema de cotas para afro-descendentes tem o seu apoio?

Saboia – Falo muito em ações afirmativas, não necessariamente em cotas, o que soa muito rígido. Estas ações podem tomar diferentes modalidades. A cota pode ser uma meta, a de atingir um percentual de participação de afro-descendentes nas universidades, no mercado de trabalho e na administração pública, sem contudo comprometer a preservação da qualidade de ensino, nem a formação ou a questão do mérito. Neste tema não há soluções fáceis e nem únicas. O que não se pode permitir mais, no entanto, é que se mantenha o baixo índice da presença de negros nas universidades brasileiras, e outras áreas importantes em completa defasagem com sua presença na sociedade como um todo.

Avdv – O Brasil continua a "renegar" sua população negra?

Saboia – Não acredito nisso. Todos os brasileiros aceitam com naturalidade o fato de que somos uma nação composta de diferentes segmentos étnicos. Existe uma tendência, porém, de achar que os grupos se misturam bem e que o processo resultante disso vai resolver essas disparidades. Mesmo com a democratização do acesso à educação, as pesquisas e estatísticas demonstram que as diferenças sociais entre brancos e negros continuam. Todos progridem, os primeiros mais do que os últimos. Facilitamos mais a imigração européia do que resolvemos a situação dos escravos libertos, que passaram a formar os bolsões de miséria que vemos até hoje. O fato dessa disparidade ter se perpetuado explica talvez a grande desigualdade na distribuição de renda, o que não condiz com o progresso do país, em outros setores.

Avdv – Pobres e negros dificilmente tornam-se diplomatas.

Saboia – O Ministério das Relações Exteriores está – desde alguns anos e com resultados – patrocinando uma bolsa de estudos para afro-descendentes. Temos uma Diplomacia reconhecidamente competente. É preciso refletir a natureza da sociedade brasileira e alargar o mercado onde o Itamaraty vai encontrar seus futuros diplomatas. Essa busca não pode ser restringida a grupos. Os candidatos concorrem em igualdade com os demais, apenas recebem a ajuda necessária para custear a preparação para o concurso do Instituto Rio Branco.

Avdv – E aqui na Europa? Como o senhor avalia a situação das minorias estrangeiras?

Sabóia – A xenofobia tem crescido na Europa, isso é visível. A violência de extrema-direita é tão ou mais perigosa do que a patrocinada pelo fundamentalismo islâmico. Acompanho as notícias com interesse, mas não tenho uma ligação direta com o assunto. Não sei se a tendência vai durar, ou como vai se desenvolver. Houve, na França, um período em que um nacionalista (Jean-Marie Le Pen, nota da Red.) esteve muito em evidência, mas depois sua posição se tornou mais fraca.

Avdv – Na Holanda, a situação é preocupante. Ela é tema de conversas entre os embaixadores?

Saboia – Não mais do que seria normal. Não consideramos o assunto um tabu e os holandeses são abertos. Acho que é preciso encontrar um meio-termo que permita às comunidades conviverem de maneira mais integrada aos costumes do país em que vivem, sem contudo perderem sua identidade original. No Brasil, essa integração ocorreu naturalmente. Não deve ter sido muito fácil, por exemplo, para os imigrantes japoneses. Talvez o sistema holandês tenha errado ao permitir esse desenvolvimento separado.

Avdv – O senhor tem acompanhado a escalada da violência, em sua cidade natal, o Rio de Janeiro?

Saboia – Não vivo no Rio desde 68, quando fui para Brasília. Minha cidade ficou só para férias. Por onde costumo andar – não me meto em lugares perigosos – não senti medo. Talvez eu tenha tido sorte.

 

Share
 
Comente a coluna
Comentários


Relacionadas:

 

Siga-nos Facebook Twitter Orkut
publicidade publicidade
publicidade publicidade
publicidade publicidade
publicidade publicidade
publicidade publicidade
publicidade publicidade
publicidade publicidade
Revista:
revista

Video:


 
Importante: Todas as colunas são de única e exclusiva responsabilidade dos seus autores, não refletindo a opinião dos mantenedores deste portal.
setas
Site criado e mantido por Marcia Curvo.Todos os direitos reservados. Reprodução proibida ©2010.
Para anúncios ou sugestões entre em contato conosco por e-mail.
Telefone: (31) (0)6 18 200 641