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Entrevistas - Neste espaço publicaremos entrevistas com brasileiros na Holanda e também com holandeses no Brasil.
 
Gisa Muniz - Talento para vencer
 
Data: 13/06/2005
 

Texto: Arnild Van de Velde
Fotos: Marcia Curvo

 

Em 1989, às vésperas de completar 24 anos, a paulistana Gisa Muniz estava a ponto de desistir do sonho de estudar no exterior, quando a oportunidade que a traria definitivamente para a Holanda, bateu à sua porta. Desde que terminara o curso de Letras com Inglês - três anos antes, em São José dos Campos - Gisa passara a escrever para consulados e embaixadas, em busca de uma bolsa de estudos. Em resposta, sucediam-se os pedidos de desculpas: ali não tinham como ajudá-la. Tanto esforço comoveu um amigo de sua família, que acabou apresentando uma solução alternativa. "A idéia era que eu viesse passar um ano aqui na Holanda, para aprender o método de ensino do país", conta a lingüista, às vésperas de lançar uma gramática - de sua autoria - da língua portuguesa, e no rastro do sucesso de seu próprio curso de português para estrangeiros - " Portugees voor Zelfstudie " - já na segunda edição, lançado em 2002 pela Editora Het Spectrum (Prisma).


Na época, Gisa Muniz, então funcionária da Embraer, ainda sentiu uma hesitação passageira. Embora não correspondesse exatamente ao desejo de prosseguir em sua área de formação, a proposta do holandês, presbiteriano como ela, era atraente. Depois do ano na Holanda, Gisa retornaria ao Brasil para assumir a direção de uma escola para crianças carentes, que o então auditor da Phillips planejava fundar em São José dos Campos. Então, já demonstrando a tenacidade peculiar aos vencedores, esta capricorniana dotada de um talento natural para identificar um bom negócio, resolveu arriscar e, em menos de dois meses, se pôs a caminho dos Países Baixos, deixando para trás o emprego na estatal e a iminente compra de um apartamento. "Eu precisava da carteira assinada para dar entrada no financiamento junto à Caixa Econômica Federal. Saí do Brasil para morar na casa de uma desconhecida, diretora da Faculdade de Jornalismo de Amersfoort", lembra. O inesperado, no entanto, manifestou-se no fato de que ninguém havia pensado em pedir um visto para que Gisa pudesse passar os planejados doze meses no país. Assim, noventa dias depois da chegada, ela voltava para casa, levando na bagagem a missão a que se propusera - aparentemente fracassada.

Destino

A passagem por São Paulo, porém, duraria pouco. Meio ano mais tarde, Gisa Muniz voava novamente em direção aos Países Baixos, desta vez a convite da entidade "Brazilië Comissie", formada por missionários protestantes, então interessados em aprender português. De trem, o trajeto de ida e volta, de Amersfoort a Assen (sede da BC), consumia quatro horas. Outras quatro horas eram dedicadas às aulas, o que tornava a rotina exaustiva. Para quem havia "romantizado" a Holanda da primeira vez - Gisa havia estado no país durante o verão - os choques cultural e térmico logo se fizeram notar, tanto nos rostos carrancudos , quanto como no frio e escuridão do inverno. Em contrapartida, cupido já havia providenciado o namoro com o jornalista Hans Bronkhorst - que se tornou seu marido há 15 anos. Os dois se conheceram numa palestra sobre Comunicação ainda durante a primeira temporada da brasileira no país. Hoje Hans - contrariando a impressão generalizada de que o marido estrangeiro está por trás de suas empreitadas - é o braço direito da mulher, na escola de idiomas que mantêm no centro de Utrecht. Além do português, a Talent Talen oferece cursos em outras línguas, a exemplo do árabe, hebraico e japonês, em todo o território holandês.

Determinação

A receita vitoriosa de Gisa Muniz inclui ingredientes como persistência, disciplina e determinação. Se no início precisou peregrinar à Prefeitura de Amersfoort, em busca de meios para custear os estudos de holandês, hoje pode se dar ao luxo de não se preocupar tanto com dinheiro. A razão que a leva a dormir pouco é a incansável disposição para realizar projetos. Seu curso de português para estrangeiros, por exemplo, aborda as duas versões da língua (brasileira e lusitana) e ainda inspirou uma edição semelhante para a língua espanhola já publicada que lhe rendeu direitos autorais e seu livro é também a base para os cursos de inglês, francês, alemão, italiano, russo e frísio sem professor da série Prisma, editados pela Het Spectrum.

No tempo transcorrido entre aquela dependência e este status confortável, Muniz não esmoreceu, nem mesmo diante da necessidade de repetir a graduação em Letras pela Universidade de Utrecht. Apesar de ter experiência comprovada na matéria, seu diploma brasileiro não tinha valor diante da legislação holandesa. Por esta razão, estava impedida de exercer a profissão. "Era incrível ouvir um professor holandês me ensinando, em português, o feminino de cavalo". A nativa brasileira teve ainda que, obrigatoriamente, fazer a chamada "aquisição de língua", isto é, aprender o português lusitano. Para Gisa, uma apaixonada por dança flamenca - freqüenta assiduamente aulas da modalidade - , a segunda formação universitária (encerrada com o mestrado) foi um "mal necessário". Na entrevista abaixo, a empresária conta maiores detalhes de sua história de sucesso na Holanda.

Avdv - Gisa Muniz foi a pessoa certa, na hora certa e no lugar certo?

GM - Com certeza que sim. Oportunidade é algo que se apresenta diante de uma pessoa que, por sua vez, a aproveita ou não. Acho que sempre soube identificar as minhas, pois sempre consegui vislumbrar o desfecho dos acontecimentos, a partir da perspectiva de participar - ou não - deles.

Avdv - O convívio com acadêmicos e empresários holandeses mudou sua forma pensar ou ainda há uma ponta de "jeitinho brasileiro" em sua maneira de ser?

GM - Obviamente que, em determinadas situações, não há como evitar um "comportamento holandês". Me refiro a uma certa 'dureza', a um distanciamento emocional de algumas circunstâncias. Não deixo de perceber quando isso acontece e até me entristeço um pouco, pois tenho um lado muito brando e compassivo. Essencialmente falando, sou brasileira "até a última célula". Lidar com línguas estrangeiras e viajar muito, porém, também me tornaram uma cidadã do mundo e assim absorvi muitos aspectos positivos de várias culturas. Com isso quero dizer que é possível conciliar os aspectos da minha existência "globalizada", sem que precise camuflar minhas raízes.

Avdv - Como você avalia suas conquistas pessoais e profissionais?

GM - Eu estou além de onde imaginava chegar. Tanto sob o aspecto profissional, como o financeiro. É um prazer saber que estou ganhando o meu sustento exercendo não somente uma profissão, mas também uma paixão. Sempre gostei de ensinar e possuir uma escola própria, foi um sonho longamente acalentado. Dinheiro em quantidade nunca foi uma pretensão, um objetivo que persegui e continua não sendo. É muito mais a recompensa pelo trabalho que me satisfaz pois, para chegar até aqui, precisei investir muito tempo e dedicação e, claro, não me deixar levar pelo pessimismo alheio.

Avdv - Como assim?

GM - Houve quem dissesse que eu jamais conseguiria estudar na Universidade na Holanda e, depois que terminei o curso, a perspectiva era de que não fosse muito adiante com ele. Mas sou capricorniana, não desisto nunca (risos). A princípio queria comprovar a minha capacidade de vencer os obstáculos, hoje sei que posso aceitar qualquer desafio. Só não deu para realizar o sonho de cursar Psicologia, pois havia uma exigência na área da Matemática, pela qual não tenho predileção.

Avdv - Como o gasta o dinheiro que ganha?

GM - Eu gosto de gastar... (risos). Invisto em imóveis, em bens de raiz. Tenho um apartamento no Brasil e a nossa casa, aqui no centro de Utrecht, é própria. É para isso que o dinheiro serve, para suprir necessidades básicas, para possibilitar uma ida ao teatro, viajar, jantar num bom restaurante. Aqui na Holanda, onde o custo de vida é altíssimo, ter dinheiro é sinônimo de conforto. Saber que posso viajar quando quiser, fazer coisas que desejo, sem que meu orçamento fique severamente comprometido, é uma recompensa que o trabalho duro me traz. Portanto, diria que dinheiro é uma espécie de liberdade, mas não a coisa mais importante na vida de uma pessoa.

Avdv - Qual é melhor conselheiro? a intuição ou o uma boa dose de calculismo?

GM - Eu confio na intuição e me baseio muito nas minhas experiências anteriores. Quando fundei a escola, por exemplo, eu tinha saído de um período extremamente desgastante. Havia sofrido um "burnout" e chegara a ir para o Brasil, para refletir como continuar com meus projetos. Lá me decidi por retornar à Holanda e abrir aqui a minha tão sonhada escola. Encontramos o local e o aluguel era alto demais para nosso capital na época. O Hans reagiu com algum ceticismo, mas eu resolvi que a oportunidade era aquela. Não somente produzimos o dinheiro para pagar o aluguel da sala, como ganhamos muito além daquela quantia. Hoje tenho ex-colegas trabalhando para a Talent Talen, para clientes como a Prefeitura de Utrecht, Hema, Douwe Egberts. Diria que a intuição ajuda a guiar o espírito empreendedor e este sabe indentificar o melhor solo a ser cultivado e, conseqüentemente, a colher os melhores frutos, como se vê.

Avdv - Em que momento você identificou a chance de expandir os negócios?

GM - No início era uma sala pequena e eu dispunha de um site na internet, o que tornava a escola mais virtual e menos física. Com a crescente procura por cursos, precisei buscar outros espaços, dentro da cidade de Utrecht e fora dela, o que era até fácil de administrar. A partir do momento em que as avaliações dos cursos, que faço pessoalmente, geravam um deslocamento contínuo para mim - tinha que percorrer os cursos de Utrecht, de bicicleta e depois pegar o carro e viajar para Amsterdã e Haia, por exemplo - percebi a necessidade de expansão. Foi quando nos mudamos para o atual endereço, embora continuemos a oferecer cursos externos. Todos os demais cursos, porém, são ministrados aqui.

Avdv - Qual o perfil do interessado em aprender português?

GM - Há diversos grupos. Existem aqueles que desejam aprender a nossa língua para entender melhor a cultura brasileira e suas manifestações como música, cinema e capoeira. Outros são empresários e altos funcionários holandeses que querem se comunicar melhor quando a negócios, no Brasil. A idéia é oferecer cursos orientados, considerando a área de interesse e o tempo do aluno. Temos, por exemplo, ainda grupos formados por holandeses que têm interesse em adotar uma criança brasileira. A essas pessoas ensinamos que ao dizer " to cum sede", a criança está, na realidade, dizendo "estou com sede". Nem sempre isso é claro para quem aprende português através do método clássico.

Avdv - Defina, por favor, a frase: "Dinheiro é o resultado da motivação"

GM - Na Grécia antiga era incomum se perguntar a respeito da fortuna deixada por alguém que acabava de morrer. Ao invés disso, procurava-se saber se a pessoa havia vivido com paixão. Como eu gosto muito de filosofar, diria que dinheiro é o resultado da sua dedicação apaixonada ao que faz. Eu nunca fiz nada pensando no quanto ganharia. Óbvio que preciso gerar o suficiente para, por exemplo, poder pagar os salários dos funcionários. Mas não penso em termos de acumular milhões.

Avdv - Você acredita que um recém-chegado à Holanda seria capaz de repetir a sua história de sucesso?

GM - Acho muito difícil. A pessoa teria que ser muito mais dura do que fui, muito mais persistente e disciplinada. O tempo em que estrangeiros eram novidade terminou. Mesmo quando as coisas eram mais fáceis, tive muito trabalho para conseguir vencer os obstáculos que encontrei e não foram poucos. À luz de hoje, tudo parece ter sido como num "passe de mágica", mas eu bem sei o esforço que fiz para não esmorecer, não desistir e não dar ouvidos aos pessimistas que apostaram que eu não conseguiria. Ao que me parece, a Holanda de hoje não oferece mais este tipo de oportunidade.

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