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COLUNAS
Entrevistas - Neste espaço publicaremos entrevistas com brasileiros na Holanda e também com holandeses no Brasil.
 
Ivana Brasileiro - Crianças bilíngues são mais atentas
 
Data: 10/08/2005
 

 

Texto e fotos: Arnild Van de Velde

A partir de novembro, durante quatro anos, a pesquisadora Ivana Brasileiro, da Universidade de Utrecht, investigará o aprendizado e armazenamento de línguas em crianças bilíngües, cujo um dos pais tenha, como língua materna, o português do Brasil. Ainda em fase de recrutamento, os participantes, com idades entre quatro e cinco anos, serão avaliados em três diferentes fases do projeto, cuja primeira etapa se estenderá até o final de 2007. "Apesar de já termos dezenas de candidatos inscritos, muitos não se enquadram no perfil do estudo", diz a doutoranda brasileira de 28 anos, há sete radicada na Holanda. 

Testadas em três aspectos diferentes – aquisição, desenvolvimento a categorização de sons da língua estrangeira – as crianças deverão fornecer a Ivana Brasileiro dados sobre a velocidade do aprendizado, percepção lingüística e de como utilizam o mecanismo que lhes possibilita aprender, e separar estes sons. "Não vou trabalhar diretamente com vocabulário. O teste de vocabulário que vou fazer é só para dar uma indicação do nível das crianças em cada uma de suas línguas", diz.

Método

Os resultados serão comparados ao que se observa em situações semelhantes, em monolíngües. A faixa etária escolhida reúne crianças para as quais a obrigatoriedade escolar já está em vigor (na Holanda, a partir dos cinco anos), e que tenham experimentado o contato doméstico, com o português, ainda no primeiro ano de idade. No período que antecede ao início da pesquisa de campo, a acadêmica nascida em Teresina(Piauí) concentra esforços na elaboração de um método de investigação que seja "divertido e desperte o interesse dos participantes". A idéia é que os testes sejam aplicados através de jogos e brincadeiras que prendam a atenção dos pequenos.

Desdobramento

A pesquisa aprofunda o trabalho de mestrado de Ivana Brasileiro, cujo tema foi também foi o bilingüismo, concluído na Universidade de Utrecht com a tese " A aquisição de contrastes fonológicos em uma segunda língua "'. Neste, a antiga aluna do curso de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), apresentou os resultados das pesquisas realizadas com adultos brasileiros e seu aprendizado do holandês. "Minha intenção era saber como uma pessoa aprende a falar uma segunda língua, a ouvir novos sons, a captar a pronúncia", lembra Ivana. Uma das conclusões apontou para um dado comumente aceito, ainda que curioso: apesar do empenho e dedicação, adultos não atingem o alto nível de proficiência das crianças, ao aprenderem uma língua estrangeira. Para a pesquisadora, uma das possibilidades de explicação seria o sistema de percepção de sons, mais aguçado na primeira idade.

O estudo é orientado pelo professor René Kager, especialista em Fonologia, do Instituto de Lingüística de Utrecht(UIL-OTS). "Enquanto no mestrado eu examinei o método adulto de aprender um segundo idioma, no doutorado meu objetivo é descobrir como fazem as crianças, para aprender dois ao mesmo tempo". Na entrevista concedida em sua sala, na Faculdade de Letras da mesma universidade, Ivana Brasileiro detalhou as vantagens do bilingüismo e explicou a importância do uso do português na comunicação com os filhos – "Falar na própria língua ajuda a expressar afeto", diz.

Arnild Van de Velde - Qual a idade ideal para introduzir uma segunda língua à criança?

Ivana Brasileiro - Uma idéia muito difundida e a do período crítico. Segundo esta hipótese, se uma criança for exposta a uma língua até certa idade aprenderá a língua perfeitamente; pelo contrário, se exposta depois desta idade, nunca atingirá o nível nativo. Esta hipótese, entretanto, tem sido bastante contestada. Mas, ainda assim vale que, de um modo geral, quanto mais cedo melhor.

Avdv - A pesquisa com adultos inspirou o tema do seu doutorado. Qual aspecto foi decisivo?

IB - Na verdade, acho que o aspecto decisivo veio mesmo da parte mais teórica. A vontade de descobrir como sons de línguas diferentes são armazenados em crianças bilíngües. O que não quer dizer que meu trabalho com os adultos não tenha me inspirado bastante. Interessante que mesmo quem já mora na Holanda há mais de 15 anos, ainda apresenta problemas em distinguir sons com a perfeição dos nativos. Interessante também a grande diferença apresentada entre os participantes: enquanto uns seguiam estratégia A, outros seguiam estratégia B. Enquanto que, o "mais normal" (se é que se pode falar nestes termos), seriam todos seguir a mesma estratégia, já que a língua materna é a mesma (Português) bem como a língua a ser aprendida (Holandês)

Avdv – Qual a efetividade do aprendizado simultâneo de línguas, para crianças tão pequenas?

IB – Até a década de 1970, a crença comum pregava que crianças deveriam aprender idiomas em fases separadas. Nos últimos trinta anos, porém, a experiência demonstrou que a prática era equivocada: a criança bilíngüe se desenvolve melhor e mais rapidamente do que a monolíngüe. As primeiras apresentam mais capacidade de generalização e desenvoltura do que as segundas, o que lhes facilita a comunicação dos desejos em circunstâncias diversas.

Avdv – Brasileiros residentes no exterior, no entanto, muitas vezes priorizam a língua do país em que moram, em detrimento do português, como língua doméstica.

IB – O Brasil é um país essencialmente monolíngüe. Lá, até mesmo pela extensão territorial, se fala o português por todos os lados. Em continentes como África e Ásia, em contrapartida, o "ser bilíngüe" é usual. Não posso aqui julgar as razões do detrimento da língua portuguesa, em função de outra, mas posso dizer que não repassá-la aos filhos é uma pena. Sobretudo nos dias atuais, em que a sobrevivência se tornou praticamente impossível sem o conhecimento de, ao menos, um segundo idioma. No caso dos filhos de brasileiros, a maior vantagem é a de que aprenderão o português de uma fonte genuína.

Avdv – Que tipo de conseqüências, então, a "negação" da língua portuguesa traz para a formação dos filhos?

IB – Do ponto de vista sociocultural, implica em não conscientizar a criança da importância da língua e, sobretudo, de subtrair valores atrelados à mesma; do ponto de vista afetivo, priva a criança da saudável experiência do contato com avós, tios e primos, tão presentes na constelação familiar tipicamente brasileira. Sem o domínio do português, a criança termina sem estabelecer um elo com o Brasil que, afinal, também faz parte de sua história pessoal.

Avdv – Há também pessoas que querem se desligar de suas origens brasileiras e – mesmo sem dominar o idioma estrangeiro - optam por não ensinar português aos filhos.

IB – Não quero julgar e nem condenar quem opta por não transmitir a língua de origem para os filhos, já que a decisão envolve fatores emocionais e psicológicos. No entanto, quando não se tem proficiência numa determinada língua estrangeira, expressar amor e carinho de forma convincente, se considerarmos a perspectiva da criança, é muito difícil. Elas notam essa "lacuna" de emoções e às vezes o amor mal-expressado pode ser entendido como desamor. Uma das razões que levam pais a falarem em seus idiomas nativos é justamente essa, a da demonstração de amor ao filho, se utilizando de expressões que são típicas de seu berço cultural.

Avdv – Outro argumento, bastante comum, sugere que a criança fica confusa ao ter que lidar com dois idiomas tão distintos.

IB - Esse é um efeito que, às vezes, se quer evitar, mas ele é menos danoso do que se pensa. A criança que tem, fora de casa, contato suficiente com a língua holandesa aprenderá a corrigir os eventuais erros que venha a cometer, já que o holandês será a sua língua de uso principal. À medida que a criança cresce, tais falhas desaparecem automaticamente. No caso da comunidade brasileira, que vive espalhada, vícios do uso do português, transferidos para o holandês, não representam grande risco para a formação da fala do indivíduo, como representariam, se a comunidade coexistisse num espaço mais aproximado Mesmo neste caso, conseqüências negativas não são esperadas. Desde que a criança mantenha bastante contato com ambas as línguas.

Avdv – Como agir, caso a criança se recuse a falar português?

IB - Quando a criança percebe que a mãe ou pai estrangeiro entende o holandês, poderá até mesmo se recusar a falar o português, porque nota que é compreendida e atendida em suas necessidades se falar apenas o holandês. O negócio é insistir no uso da língua "secundária", o que resultará em muitos benefícios

Avdv – Por exemplo?

IB – O sistema de ativação desta língua será muito mais eficiente se ela for estimulada, do que se o contrário for a norma. Uma criança habituada a ouvir o português poderá, numa visita ao Brasil, se comunicar muito mais rapidamente do que uma que não o é. Além disso, a criança desenvolve ainda uma estratégia comunicativa, servindo-se de palavras de ambas as línguas para dizer o que pensa ou o que deseja – e ser entendida.

Avdv – O hábito de falar misturando os dois idiomas é consciente ou inconsciente?

IB – A princípio é uma escolha consciente, que mais tarde se transforma em regra. Usar duas línguas numa mesma conversação é um fenômeno cultural, uma questão de estratégia. Por que não? Por exemplo: a palavra holandesa " gezellig "  (prazeroso), como empregada aqui na Holanda, não tem uma boa tradução em português. Usá-la incrementa a comunicação e isso só representará problema se houver monolíngües no grupo.

Avdv – A mistura não afeta o domínio de uma e outra língua?

IB - De um modo geral, as pessoas sabem separar os vocabulários. Outro exemplo: se eu estiver falando com a minha mãe, que não entende o holandês, automaticamente vou dispensar o uso do vocabulário desta língua. Mas, ao conversar com você, poderei dizer uma ou outra coisa em holandês, sem comprometer a comunicação entre nós. É a capacidade de ativar e desativar uma língua, que a maioria possui e usa automaticamente.

Avdv – E o sotaque? Como é possível que pessoas consigam alterar o de origem?

IB - Isso é coisa de línguas em contato. Quando eu voltava de Belo Horizonte, onde estudava, para Teresina, as pessoas ali achavam que eu falava com sotaque mineiro; já em Belo Horizonte, achavam que eu tinha um sotaque piauiense. A parte da fala que diz respeito à melodia, à entonação é muito fácil de ser alterada, por ordem da convivência. O fato de usarmos expressões e palavras de determinada região causa a impressão de que mudamos o sotaque original, mas, notadamente, se voltarmos ao nosso lugar de origem em pouco tempo reassumiremos a fala local. Gostaria de destacar, porém que, sotaque, assim como língua, também muda. Eu estou aqui, mas o povo do Piauí está reciclando a fala, inventando palavras novas e até mesmo um novo sotaque, por estar em contato com paulistas, mineiros e outros.

Avdv – O que é acomodação lingüística?

IB – Este é um fenômeno extremamente interessante, que explicarei de modo figurativo: imagine que você seja natural do interior de São Paulo, e eu, do Piauí. No decorrer de uma conversa entre nós duas, a tendência é de que o seu sotaque se torne mais próximo do meu, e o meu, do seu. Isso é uma demonstração involuntária de aceitação, de cumplicidade e até mesmo de carinho. Não é anormal e não há porque ter vergonha disso.

Avdv – A transferência de sons em línguas tão distintas como o holandês e o português é possível?

IB – As pessoas transferem os sons mais parecidos, como a, e, o. A causa da transferência de sons menos parecidos podem ser múltiplas. Quem considera o holandês uma língua superior ao português, ou que valoriza pouco a língua materna, ou ainda associa a melhora de aspectos pessoais da vida à permanência na Holanda, pode eventualmente assumir características da fala holandesa, como demonstração da escolha que fez por este país.

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