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COLUNAS
Adriana Mattos - é carioca e faz doutorado na área de ciências médicas e farmacêuticas na RUG, em Groningen, onde mora há 5 anos. Casada com holandês e mãe de 3 filhos, passou a se interessar por estudos de bilinguismo para poder entender e acompanhar o desenvolvimento da linguagem de seus dois filhos menores, nascidos na Holanda. Os meninos, atualmente com 4 e 2 anos, são criados com 3 idiomas simultaneamente (português, holandês e inglês) e estão se tornado trilíngues sem grande dificuldade, para o deleite da mamãe e do papai.
 
Imigração, Choque Cultural e Saúde Mental
 
Data: 09/07/2010
 

Desde que o mundo é mundo e que a espécie humana habita o planeta Terra, as migrações são fatos comuns e corriqueiros. A própria história da nossa civilização segue o viés das migrações humanas. Os primeiros aventureiros mais audaciosos, saíram do berço Africano para conquistar todos os outros continentes, há cerca de 90 mil anos, e nunca mais pararam. Com isso, foram transformando o nosso lar, chamado Terra, em uma casa de cômodos e, a cada cômodo foi dado um nome. O cômodo que eu morava antes de vir para cá se chama Brasil.

Hoje em dia, no nosso mundo globalizado, as movimentos humanos tomaram proporções nunca antes vistas na história da civilização humana. Estima-se que, por ano, cerca de 190 milhões de pessoas emigram e imigram ao redor do planeta; o número de imigrantes no mundo é mais que o dobro desde 1975; só na Europa são mais de 60 milhões de pessoas que vivem longe de seus países de origem; em 1990, os imigrantes já contavam como mais de 15% da população em cerca de 52 países. E a Organização Internacional de Migração prevê que o crescimento econômico e as políticas cooperativas emergentes entre os países europeus, vão aumentar ainda mais o movimento migratório nos próximos anos. Os países mediterrâneos, juntamente com o Reino Unido e Holanda são os que mais atraem imigrantes não-europeus, ou seja, grupos culturais mais distantes se comparados com o país que os recebe. Isso é um problema porque o contato entre pessoas de culturas diferentes durante o processo de adaptação e integração é tão maior quanto o são suas distâncias culturais.

De todas as mudanças que podem acontecer na vida de uma pessoa, poucas são tão impactantes e complexas quanto as mudanças ocorridas durante um processo de imigração. Praticamente tudo o que cercava o emigrante muda. Aspectos que vão desde alimentação, passando por relações familiares e sociais, idioma, cultura, status pessoal e social e até pelo clima são sujeitos à mudança. Mudar de país é comparável ao processo de luto. E pode-se dizer que o distress no imigrante é ainda pior que o luto por perda de um ente querido, uma vez que o objeto de luto (o país de origem) continua lá: vivo e, muitas vezes, inacessível. E nisso o processo de resolução do luto, nesse caso a integração ou aculturação, pode ser prolongado ou mesmo impossível de acontecer de modo completo.

As pessoas saem de seus países de origem por vários motivos diferentes, mas podemos resumir a imigração como sendo de duas formas: voluntária e involuntária. E já dá para imaginar que o imigrante involuntário, como por exemplo um refugiado de guerra ou asilado político, vai sofrer muito mais com a mudança do que uma pessoa que imigre para estudo, trabalho ou casamento, concordam? E não podemos esquecer dos imigrantes ilegais, que apesar de serem também voluntários, estão dentre os que mais vão ter problemas pelo fato de estarem constantemente preocupados com uma deportação e por terem se enganado em suas expectativas de ‘mudança de vida’. Mas não tem escapatória: todos os imigrantes, independente de seus motivos para deixarem a pátria, vão experimentar o ‘choque cultural’, ou seja, o imigrante vai , por causa do contato com uma cultura diferente, enfrentar problemas relacionados aos vários fatores estressantes que esse tipo de experiência carrega consigo.

O choque cultural foi inicialmente descrito em 1954 e é definido como o sentimento de impotência em lidar com o novo ambiente por causa do desconhecimento dos aspectos cognitivos, culturais e sociais que são estranhos ao indivíduo. Além do intenso stress causado pelas diferenças culturais, a fadiga cognitiva, consequência do excesso de informação, também vai ser importante fator causador de desequilíbrio na saúde psicológica e física do indivíduo. Além da linguagem verbal, a pessoa passa a se preocupar e se concentrar em tarefas que antes eram feitas automaticamente. Isso pode resultar em exaustão mental e emocional, que pode levar a um ‘burnout’. Dores de cabeça e o desejo de se isolar socialmente, especialmente ao fim do dia, são sintomas iniciais comuns.

Um dado consistente de pesquisas mostra que os imigrantes sofrem mais de distress emocional e apresentam saúde mental mais debilitada quando comparados à população nativa. O processo de adaptação à nova cultura é relacionado com maiores níveis de depressão, ansiedade, baixa auto-estima e outros problemas psicológicos. O distress pode causar também problemas orgânicos, relacionados à baixa imunidade, e dores no corpo. A pessoa preocupa-se muito com a saúde e pode sofrer de dores crônicas, por exemplo. Junte-se a isso perda de posição social e profissão que antes eram estáveis e conhecidas e temos uma verdadeira catástrofe emocional formada!

Os problemas de saúde mental são tão evidentes na população imigrante que, recentemente, os pesquisadores propuseram agrupar esse conjunto de sintomas, que se apresentam nas pessoas que imigraram e que têm um nível de stress maior do que suas capacidades de adaptação, na chamada ‘Síndrome do Stress Crônico e Múltiplo do Imigrante’ ou ‘Síndrome de Ulisses’. O manejo dessa síndrome está sendo considerado, em muitos países, como prioridade de saúde pública. Nessa recém-descrita entidade patológica, os imigrantes são afetados por sintomas depressivos de características atípicas, onde a depressão é misturada com sintomas de ansiedade, somatização e sintomas dissociativos. A tristeza é o achado mais comum, muitas vezes acompanhado por choro, culpa, idéias de morte, tensão, irritabilidade, insônia, dores de cabeça, fadiga, problemas de memória e de atenção e desorientação. Em casos mais graves, isso pode levar à quadros psicóticos, com perda de identidade e desorientação de tempo e espaço.

O desenvolvimento dos sintomas ocorre de forma gradual , à medida que o imigrante enfrenta problemas como viagem turbulenta e difícil, distância de seu ambiente e familiares, dificuldades de arrumar emprego e de suprir as necessidades básicas, achar moradia e regularizar os documentos. O racismo sofrido no país hóspede também é um fator desencadeante do processo.

Normalmente os problemas acontecem nos primeiros 12 meses, mas imigrantes que se adapatam mais fácil e rapidamente, também correm risco de sofrer de ‘Síndrome da Depresão Postergada’ , que acontece cerca de 2 a 3 anos após a chegada do imigrante que parecia adapatado, com emprego, falante do idioma , com rede de amizade e moradia estabelecidas.

Na Holanda, um dos poucos países com dados sobre níveis de saúde física e mental em grupos de imigrantes comparado com nativos, é sabido que o primeiro grupo sofre mais de depressão, abuso de drogas, tentativas de suicídio, esquizofrenia e desordens psiquiátricas de menor importância que a população local. Além disso, a barreira cultural, sócio-econômica e de linguagem são fatores limitantes na procura de orientação profissional por parte de vários grupos de imigrantes. Em um estudo em escolas, também foi constatado que professores turcos imigrantes foram capazes de detectar altos níveis de de ansiedade e depressão entre crianças imigrantes de mesma nacionalidade. Esses problemas tinham passado desapercebidos pelo professores holandeses. Existe, portanto, uma necessidade de profissionais bilíngues e biculturais para o atendimento específico desses problemas. Mas como no país dos tamancos, especialmente na última década, a integração cultural é tratada como ‘assimilação’, ou seja, a cultura holandesa é imposta sem considerar as necessidades dos imigrantes, estamos em maus lençóis!

O primeiro passo para vencer o problema é aceitar que o choque cultural é normal em um ambiente cultural diverso e que existem maneiras de amenizá-lo e de fazer com que a adaptação ocorra mais tranquila e gradualmente. E como fazer para facilitar todo esse processo? Veja abaixo algumas dicas:

  1. Reconhecer que a adaptação à uma nova cultura, também chamada de ‘aculturação’, é o processo de contrução de um novo ‘EU’, resultado do casamento do ‘EU’ antigo com algumas mudanças de hábitos sociais e cuturais. Não é preciso e nem saudável assimilar completamente a cultura do novo país. Uma sinergia de valores, hábitos e comportamento social seria o ideal;
  2. Procure manter contato com os familiares e amigos de seu país. Arme-se de tecnologia: skype, emails, MSN e outras ferramentas modernas são válidas;
  3. Tente cozinhar pratos típicos uma ou duas vezes por semana em casa. E você não é obrigado a gostar de comer pão de grãos com queijo e sopa no almoço todos os dias;
  4. Faça visitas a seu país sempre que for possível, mas esteja consciente de que a volta pode ser difícil, mas que vai passar (de novo);
  5. Mantenha contato com seu idioma através de TV por assinatura ou internet, amigos de mesma nacionalidade e leitura de livros, revistas e notícias em português. Mas cuidado! Não se isole nisso e tenha também contato com imigrantes de outras nacionalidades e holandeses;
  6. Tente ver a experiência de imigrar de forma positiva, como uma oportunidade de aprender e de ganhar coisas igualmente positivas;
  7. Tenha em mente que o problema não é especificamente desse país, mas sim do choque cultural, o que aconteceria em qualquer outro lugar;
  8. Não encare como vergonha o fato de resolver voltar para casa. Encare como coragem, pois o choque de re-entrada pode ser de maior intensidade, embora de menor duração;
  9. Não hesite em procurar ajuda psicológica, caso veja que as coisas não estão indo bem. E, se possível, tente achar um profissional que esteja familiarizado com problemas de grupos imigrantes.

Espero, sinceramente, caros leitores, que esse texto tenha sido útil. E hoje em dia, embora eu ainda sofra com as fases do choque cultural, tenho cada vez mais a certeza de que meu país se chama Terra. E o seu, como se chama?

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Comentários



Elisabete - 01/02/2017
Obrigada por estas palavras tão esclarecedoras, estou na Holanda há um ano e estou a identificar-me nelas.

Veronica C M Semler - 18/02/2014
Olá Adriana mattos, Amei sua matéria!muito bom saber que tem brasileira que pensa como eu penso. Gostaria muito mesmo de poder um dia conversar com vc,pois moro bem proximo de vc,moro em Assem,pois não tenho amizades por aqui e vc e carioca como eu e uma pessoa que certamente terá algo para conversar,sinto falta de minha gente,de rir e uma das coisas que mais sinto falta ser alegre como sou no Brasil,aqui não tenho trabalho,tenho um blog Vero Europa Fashion e o meu passa tempo,pois estudei moda e tinha uma confecção em Niterói e duas ljs,tinha uma vida bem diferente,enfim caso possa entrar em contato comigo,ficaria muito feliz!!!esqueci de dizer sou casada e tenho 2 filhos uma menina de 9 anos e um menino de 22 meus amores,sendo que meu filho esta no Rio fazendo faculdade de Geografia,um orgulho pois e um garoto super esforçado,inteligente tudo que pedi a Deus!!!rsrsrsrsr coisas de mãe coruja!!!meu face e :veronica semler. bjkas

juliana mendes - 22/09/2013
de grande utilidade este texto eu penso muito sobre este tema pois sou brasileira e moro na franca tenho um casamento e filho nascido aqui mas francamente eu acho que eu procuro todos os dias esta tal de adaptacao os pros e contras mas no intimo acho que a verdade e que nao tem coisa pior que viver fora da sua terra muito triste isso.

Fátima Albuquerque - 14/07/2012
O choque cultural é francamente reduzido se o imigrante se envolver relacionalmente com autóctone, como por exemplo através de união de facto, casamento, etc. Parte das fontes de "estresse" são delegados no cônjuge. E no caso de ser do sexo feminino o imigrante, o o relacionamento estável, do sexo masculino, ainda mais fácil se torna porque a mulher estará apenas a cumprir o papel para o qual foi provavelmente educada desde o nascimento: encostar-se. Se tiver filhos com o autóctone ainda melhor. Mais difícil será ele desembaraçar-se dela, caso alguma coisa corra mal.

Renata Linhares - 22/10/2010
Oi Adriana, obrigada pelo texto. Estou enfrentando problemas para me adaptar e preciso arrumar emprego. Esta sendo dificil e teu texto ajudou. beijocas.

Fernanda Bueno - 07/09/2010
Adriana, Parabéns pelo seu texto. Você soube com clareza e inteligência pontuar a delicada relação que envolve tudo o que é novo. Abraço. Fernanda

Fernanda Bueno - 06/09/2010
Adriana, parabéns pelo seu artigo. Perfeitas suas colocações, principalmente quando faz referência a mudança de país e o processo de luto. Realmente, imagino que o choque deva ser algo imensurável, mas ao mesmo tempo, este homem repaginado (o homem globalizado) já vive isto de forma indireta e, como você de forma singular coloca no final....somos e estamos no mundo. Ele é nossa casa. Abraços Fernanda

Adriana - 27/07/2010
Obrigada! tenho 3 filhos. Uma menina de 23 e dois meninos de 5 e 3 anos.

Mario - 12/07/2010
Adriana, quantos filhos vc tem? Qual q idade deles? Gosto muito dos seus textos!

Catarina Rosenberg - 00/00/0000
Seus textos são sempre verdadeiras aulas para nós imigrantes. Obrigada de coração!
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