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COLUNAS
Andre L. - Andre L. é natural de Ribeirão Preto, graduado em Economia pela USP, atualmente estudante de PhD na Universiteit van Tilburg Center Graduate School - Business program, Finance track
 
Resistência à mudança, cartões de transporte e satisfação em terra estranha
 
Data: 16/07/2010
 

Há 2 semanas, depois de alguns meses de atraso, a autoridade regional de transporte em Noord-Brabant finalmente iniciou, de forma ampla, o uso de um novo sistema para pagamento de tarifas de ônibus, o OV-Chipkaart. Para os que não  o conhecem, trata-se de um cartão com RFID que pode ser utilizado nos trens, metrô, trams e ônibus já de boa parte da Holanda, eliminando a compra de bilhetes, fazendo o débito automático do crédito carregado a cada viagem, cobrando por quilômetro e aposentando de vez o sistema anterior de transporte urbano, baseado em uma divisão por zonas e, pasmem, baseado em cartelas que eram carimbadas (strippenkaart).
 
A mudança é positiva, envolve um salto tecnológico expressivo e representa um passo na direção correta – a de cobrar de cada usuário a exata distância viajada, não uma taxa a mais ou a menos por morar na rua seguinte. Todavia, o ser humano, quaisquer sejam suas língua e nacionalidade, tende à inércia. O comportamento padrão é ficar como está, não usar neurônios para ajustar o modo de resolver problemas antigos de formas novas e por aí vai. Tendo me interessado desde o início da implantação do OV-Chipkaart na Holanda, vi como essas reações se manifestam das formas mais bisonhas e sutis possíveis.
 
“Mas todo mundo já sabe como usar as cartelas, por que usar um cartão?”
 
“Esse sistema não vai dar certo. As pessoas vão esquecer como usar. E como se vai provar ao fiscal que a tarifa foi paga?”
 
“Eu não gosto. Faz 10 anos que uso “3 strippen” [3 faixas zonais] para ir de casa para o trabalho, para que complicar tudo agora? Não era melhor se preocuparem em colocar mais trams ao invés de mudar o sistema? “
 
Como ocorre em todo processo de mudança, há sempre as teorias conspiratórias e as reclamações - melhor ou pior formuladas - de quem perde vantagens injustas na situação anterior. É até divertido ler pessoas argumentando, sem conhecer o sistema, contra o mesmo, pelo simples fato de que pagarão a tarifa justa, perdendo um benefício de viajar quase de graça que nunca deveria ter existido, por exemplo.
 
Enfim, as previsões de caos, e de que o sistema seria abandonado, não se confirmaram e, hoje, o OV-Chipkaart está implantando na maior parte da Holanda já. Tive alguns amigos resmungando contra o sistema e, conversando com eles no MSN ontem, disseram que já estão totalmente habituados à nova forma de pagar pelo transporte. Embora trate-se de algo relativamente banal e inócuo (ninguém terá a vida transformada para pior ou melhor porque usa cartão com radiotransmissor ao invés de uma cartela impressa), a situação como um todo me lembrou algo que comecei a discutir semana passada: as atitudes de uma pessoa quando vai morar em uma “terra estranha”, com mudanças nos pequenos detalhes da vida muito além da forma como se paga transporte – em tempo, o fato de ainda haver o uso de cobradores e bilheteiros humanos em metrôs e ônibus brasileiros, funções há muito obsoletas pela tecnologia, é uma prova de como o país ainda anda bem atrasado....
 
Ao imigrar, vários aspectos da nossa vida são obrigados a passar por mudanças, queiramos ou não. Alguns desses aspectos são mais evidentes e direitos, como mudança de língua corrente, renda e moeda, e clima, e a maioria das pessoas se foca nestes para avaliar suas decisões. Todavia, cada vez mais penso que aspectos menores, muitas vezes negligenciados, exercem grande influência na forma como um imigrante se satisfaz com o local em que resolveu morar.
 
Quando cheguei na Holanda, vindo da Itália, as adaptações foram muitas. Sem falar a língua (embora ciente da possibilidade de usar inglês no dia-a-dia), fui ao supermercado pela primeira vez. A disposição dos produtos é diferente, os critérios de afinidade usados para agrupar produtos relacionados são diferentes dos italianos e dos brasileiros, e muitos produtos eram indecifráveis. Desejando comprar leite desnatado, comprei Karnemelk (“butter milk”, desconheço o nome em português), e ao tomar aquele líquido com gosto horrível (para meu paladar), achei que tinha comprado produtos estragados. No dia seguinte, voltei ao supermercado com um dicionário na mão, e fui mais bem sucedido. Eu poderia ter reclamado, ficado de mau humor por ter ficado sem leite decente todo o domingo, mas no fim das contas tentei ver as coisas por um lado positivo. O fato serviu de pretexto para eu me informar sobre genes que determinam mecanismos específicos de digestão da lactose.
 
A seguir, tive de lidar toda a burocracia de registro com as autoridades, depois com a universidade, depois uma mudança de apartamento no segundo mês em que estava aqui. O que aprendi com tudo isso é que, a cada vez que uma mudança prática na vida era necessária aqui na Holanda, 80% do meu humor no fim do dia era determinado pela minha atitude antes de lidar com essas questões. Aqui não é Brasil, não adianta pensar como brasileiro ou ter expectativa de que outras pessoas venham reagir como se brasileiras fossem. A experiência de se mudar para um país estranho é, por si só, impactante. Algumas pessoas transformam esse impacto em desafio, outras, em trauma.
 
Não adianta apelar para o escapismo: conheci pessoas, tanto aqui na Holanda como na Itália e nos EUA, que se agarram a certos costumes e práticas como forma de não se “desconectar” emocionalmente da “casa brasileira”. Não me refiro apenas a um imóvel, mas à situação em que alguém não consegue deixar clima, amigos, família, culinária, cultura etc. brasileiras como parte do passado, tentando de todas as formas viver aqui como se lá estivesse. Certamente, não apenas brasileiros correm esse risco: um colega nosso que veio de um país asiático enveredou pela rota de transformar o impacto em trauma ao ponto de se recusar a sair com a turma para passeios porque “I don’t like anything about this place, I want my friends, my food, my music”. Pobre guri, está desperdiçando sua vida e entrando em depressão à vista de todos.
 
Por isso, cada vez mais entendo que cada um que pensa em imigrar deve fazer um autoexame de consciência, refletir bastante e tomar decisões informadas. Se a decisão de cruzar o oceano for tomada sem convicção, sem certeza ou sem autoconfiança, a probabilidade de que essa pessoa seja mais uma a reclamar de tudo, de todos e a ficar chorando todo dia pelo paraíso brasileiro deixado para trás são bem grandes. Há muito romantismo (as vezes em sentido literal) sobre a vida de imigrante, sobre uma imagem projetada de Primeiro Mundo, sobre a imagem de um país cheio de tulipas e moinhos, de mulheres bonitas e que falam 3 línguas etc. etc. Então, muitos decidem imigrar sem pensar direito, e aí o sofrimento e a decepção serão inevitáveis, e qualquer mudança – do horário costumeiro de jantar ao estilo de narração de eventos esportivos – virará pretexto para justificar a insatisfação que começa por dentro do imigrante em si. É a síndrome do turista-para-sempre, mas sobre isso escrevo em outra ocasião. 

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Comentários



G. - 22/07/2010
Achei o texto confuso... comeca com OV-chipkaart, passa por karnemelk e acaba com critica a dificuldade que alguns imigrantes tem em se integrar a nova cultura. O autor quis abordar muitos assuntos no mesmo post. E no final nao entendi se o texto e' informativo (sobre o OV, por exemplo), um diario de Lot (coisas pessoais e sem importancia) ou auto-ajuda (que nao ajudou em nada) para imigrantes. Li tambem o texto da Adriana e esse sim foi muito esclarecedor, alem da sensibilidade que ela possui ao tratar do assunto "imigrantes". Sugiro ao Lot escrever sobre assuntos relacionados a area dele (economia, nao?) acho que seria muito mais proveitoso, principalmente por que a maioria das pessoas nao tem conhecimento do assunto. Algumas sugestoes: acoes da bolsa, opcoes de investimento, capitalismo, juros x lucro, diferenca das moedas, FMI, etc. Para escrever bem nao basta boa gramatica e vasto vocabulario; conhecimento do assunto e sensibilidade sao essenciais!

Laura - 19/07/2010
Zeuren is menselijk,dus dat zal altijd gebeuren!!! karnemelk>>> leite de manteiga ou leitelho.

Leonita - 19/07/2010
André, Seu texto está muito bom, concordo com a Sheila. Mas, você, de certa forma, incorre na falha de generalizar. Não vamos julgar sem saber os motivos, as circunstâncias que motivaram as pessoas a imigrarem. Eu acho que muitas vezes "reclamamos" de coisas mas são mais da boca para fora do que realmente um sinal de não adaptação. Na maioria das vezes esse "reclamar" ajuda a tornar consciente o processo de aceitação da nova cultura. Vamos frisar bem: cada caso é um caso. Todas as generalizações são perigosas (inclusive esta). Abs e sucesso, Leonita.

Sheila Yurgel - 18/07/2010
Adorei sua coluna, e concordo em muitos dos aspectos relatados. Apenas acho que todos que imigram possuem motivos diversos para terem tomado essa decisão. Nem sempre é algo da própria vontade, então neste caso considero que fica mais complicado uma adaptação ao pais .E tb existem pessoas que deixam o Brasil por um tempo determinado-sabem que vão retornar. Sendo assim, a experiência muitas vezes é vista como positiva . Mas qdo não é esse o caso( o tempo é indeterminado sem que essa pessoa tenha escolhido isso) então tudo torna-se mais dificil. Mas mesmo assim, parabéns pelo ótimo texto!!
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