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COLUNAS
Cristina Oliveira - nascida em Maringá - Paraná, mãe da Maria Eugênia, Bárbara e Ruy. Vovó do Enzo e do Léo. Morou 7 anos nos Estados Unidos, onde adquiriu a cidadania americana e há 6 mora na Holanda com o parceiro fotógrafo Chris Perreijn. Tem como hobbies a fotografia e espalhar suas idéias sobre o mundo para o mundo!
 
Struikelstenen - (pedras de bronze nas calçadas )
 
Data: 17/05/2017
 
Este ano visitei pela primeira vez a Anne Frank Huis
 
Foi uma experiência comovente atravessar o armário dos livros, subir os degraus estreitos que se escondem atrás do armário e sentir a energia estagnada nas paredes e no piso de madeira que rangia a cada passo meu, misturado com a voz da menina Anne que me guiou pela casa enquanto dividia comigo suas idéias e planos para o futuro.
Me agoniou o sufocar das janelas que nunca puderam se despir das suas cortinas grossas e escuras. Janelas tristes que não deixavam o sol entrar. 
 
Quantos sonhos ficaram lá dentro. Quanta espera, medo, sentimentos reprimidos, sussurros, fotos na parede e cheiro de couve-flor. 
 
Saí  do museu, e acho que é essa a intenção, com a vontade louca de capturar o primeiro ar puro que passasse e com o coração sufocado tentando me colocar no lugar daquelas pessoas que tinham que fazer de conta que não existiam e que como almas presas dentro de uma casa antiga, não podiam sair de lá.
 
Tentando imaginar que uma menina tão inteligente, com tanto potencial, sonhos e sensibilidade, sem um pingo de ódio no coração, foi  arrancada do seu esconderijo no último estágio da guerra, quando já não se fazia mais sentido, e junto com a sua família foi deportada para um campo de concentração, de onde só o seu pai saiu.
 
Apenas porque eram diferentes do que deveriam ser aos olhos de alguns. 
 
Anne Frank e sua família estavam entre os 100.000 judeus que foram deportados na Holanda. E a sua história representa a história de quase 6 milhões de judeus que foram executados de forma hedionda durante a segunda guerra mundial.
 
Todos conhecemos a história. Aqui a vivenciamos de perto. Não apenas folheando a página de um livro , mas simplesmente ao andar pelas ruas. 
 
Na verdade, não preciso de um museu para experimentar o que aconteceu. 
 
Não preciso do 4 de maio, o Nationale Herdenking, para me lembrar de todas as vítimas da Segunda Guerra Mundial e de outras situações de guerra e missões de paz. Mas considero a ação muito nobre.
 
Da mesma maneira, o 5 de maio, de Bevrijding, onde então se festeja a liberação da guerra e o fato de que até hoje a liberdade prevalece nesse país. 
 
Eu não preciso dessas datas, festas e seus monumentos. Basta eu sair de casa, dar alguns passos e… voilà.
 
Só na minha rua foram arrancados de casa, deportados e executados em campos de concentração 22 vizinhos meus.  À minha direita, duas casas adiante da minha, moravam Sybilla e Herman Van Beek, que foram deportados em 9 de fevereiro de 1943. 
Ela foi executada 3 dias depois, e ele, no dia 30 de abril do mesmo ano.  Ambos em Auschwitz. Ele tinha 35 anos. Ela, 24. 
Eu poderia aqui listar todos os seus pertences que ficaram para trás, o inventário se encontra online, mas a idéia me deprime.
 
Na casa de número 3 moravam Jansje e Eleazar Haagens, e o filho Salomon de 23 anos.  O casal foi executado em Sobibor. O filho mais tarde, em Auschwitz. E da mesma maneira Lazarus, Mina, Samuel, Jacob, Louis, Bertha, Abraham, Hertog Napoleon, Rosa Elisabeth, Jacques Henri, Helena, Marianne Bertha, Joseph Hugo, Samuel Albert, Henri Jacques (o filho), Paula Emelia e Rosa Katzman… Todos deportados em 1942 e 1943 e executados em Auschwitz, Dachau, Bobrek, Schoppenitz ou Sobibor.
Eles eram meus vizinhos num tempo em que eu ainda não morava aqui.  E cada um deles tem a mesma história que a Anne teve para contar.  Cada um com seus sonhos, medos e a esperança de tempos melhores. 
 
E se eu tivesse vivido aqui na rua naquele tempo, provavelmente seriam meus amigos, cozinharíamos juntos de vez em quando e iríamos celebrar o straatfeest(festa de rua) juntos também.
 
Um deles talvez tomaria conta do meu cachorro enquanto eu estivesse fora. Ou seria aquele que anda com o cachorro e não recolhe o cocô? Ou talvez seria aquele que sempre vem pedir açúcar emprestado, ou gelo. Ou aquele que vem vender rifa da escola na hora do jantar, ou o chato que quando toca a campanhia a gente se esconde debaixo do tapete.
 
Anyways…
 
Eu não consigo imaginar como seria vê-los sendo arrancados de casa já imaginando o que os esperaria. 
Tempos difíceis aqueles.
 
Ficou a lição para quem consegue enxergar.  E apesar de toda a dor que dá para sentir, sinto uma enorme gratidão também. 
Andar pela minha cidade hoje, pela minha rua, sorrir para meus vizinhos e viver em harmonia com todos eles, não tem preço. 
A atmosfera é outra. As casas estão alegres e as crianças brincam pelas ruas.  Vivemos os tempos melhores.
E isso eu devo a vocês meus vizinhos do passado. 
 
Hoje, seus nomes estão gravados em pedras de bronze nas calçadas (struikelstenen), na frente de suas casas, para nos fazer lembrar todos os dias de como eram aqueles dias. 
 
Do que foi e é capaz o ser humano, e de qual é a minha responsabilidade diante disso tudo. 
E é por isso que eu vou escolher o amor sobre o medo, sempre. Nos perdoem.
 
Gratidão, sempre.
 

 
 
 

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