“Que o nosso tempo seja lembrado pelo despertar de uma nova reverência face à vida, pelo compromisso firme de alcançar a sustentabilidade, a intensificação da luta pela justiça e pela paz, e a alegre celebração da vida”.
Partindo desse nobre princípio, sinto-me instigada a questionar sobre a nossa responsabilidade uns para com os outros e com as gerações vindouras. O nobre princípio acima refere-se à última frase da Carta da Terra, documento assinado pelos governos do mundo inteiro no ano de 2000 no Palácio da Paz ( Vredespaleis) na Holanda. A Carta é uma declaração de princípios éticos fundamentais para a construção de uma sociedade global justa, sustentável e pacífica, estruturada em quatro grandes tópicos, que são, Respeito e cuidado pela comunidade da vida; Integridade Ecológica; Justiça Social e Econômica; Democracia, não-violência e paz.
Ao contrário, o que me parece é que reduziram os nobres princípios enunciados a dez anos atrás, na falácia do meio-ambiente verde e despoluído, sem incorporar os grandes desafios enfrentados pela humanidade neste limiar de século e milênio. Não basta acenar, indevidamente, com a bandeira de líder diante de mais uma Conferência Climática se por outro lado os impactos do desenvolvimento desigual e injustiça social são dramáticos. Precisamos sim, urgentemente encontrar respostas às questões do desemprego, da falta de democracia participativa, das violações recorrentes dos Direitos Humanos, da degradação da qualidade de vida, sobretudo dos mais carentes e excluídos. Outra preocupante é a questão do papel da ciência e tecnologia na sociedade afligida por tremendos problemas sociais, cada vez mais, sistematicamente evitada pelos cientistas e políticos.
Os jornais de hoje, que anunciam volta a normalidade no cotidiano do Rio de Janeiro - purgatório da beleza e do caos, dividem seu espaço para enunciar que o Brasil - país do futuro, cresce com energia limpa, empregos verdes e menos emissões de gases do efeito estufa. ( O fato da aquisição pelo nosso presidente, de um novo avião, maior , mais caro e em versão executiva não será nesse momento discutido). Helemaal goed! De um lado, o país avançou no combate às mudanças climáticas, mas por trás do discurso verde, deixa de assumir posições 100% limpas ao não abraçar o desmatamento zero. Isso sem falar no pré-sal. Afinal, a principal fonte de emissão brasileira continua sendo o desmatamento e as queimadas, seguidos pelo setor agropecuário e pelo de energia.
É o fortalecimento de um modelo energético baseado em fontes sujas, em vez de ser utilizado o potencial brasileiro para inundar sua matriz com energia limpa, vinda do Sol e dos ventos. Enquanto o governo não rever suas escolhas, introduzir critérios sociais e qualitativos para avaliar os avanços em direção ao desenvolvimento com sustentabilidade, abraçar os direitos humanos – como condição básica para a sobrevivência da sociedade, ficará difícil acreditar no Brasil Sustentável que o presidente Lula tenta vender.
Não devemos nem podemos desarmar-nos em tempos de trevas. A evolução da humanidade segue por caminhos tortuosos e contraditórios. As injustiças ainda precisam ser denunciadas e combatidas, porque sozinho, o mundo não vai melhorar.