Quando eu vim à Holanda pela primeira vez no início de 2004, vim a passeio. Prolongado, devo dizer. A intenção inicial era dividir todos os 90 dias do visto de turista entre aqui, Alemanha e Portugal. Eu queria que este período fosse um de descobertas, de reflexão e de constatações. Eu estava hospedado na casa de um amigo pen-pal, termo talvez um pouco antiquado hoje, mas antes de a internet tornar-se popular, corresponder-se regularmente através de cartas com pessoas de outros países era uma experiência desejável para poder aprimorar o inglês escrito. Apesar de constantes convites esporádicos para visitar a Holanda da parte deste penpal, eu nunca os levei realmente a sério. Até que um dia eu mudei de idéia.
Este dia foi o dia 24 de janeiro de 2003. Houve um acidente automobilístico no caminho para o trabalho, envolvendo a mim e ao motorista. Ele cochilou no volante. O carro derrapou, voou sobre um barranco e capotou. Tanto ele quanto eu escapamos com apenas alguns arranhões mas o carro da empresa teve perda total. Eu devo ter desmaiado por um ou dois segundos e gritei pelo nome do motorista para confirmar se ele está consciente. Ele confirmou. Arrastei-me para fora do veículo com certa facilidade e não consegui deixar de me impressionar com o estrago acometido. Lê-se com frequência em jornais que pessoas morrem em acidentes muito semelhantes.
Após recebido o tratamento necessário e ter o braço na tipóia, voltei para o conforto do meu lar, com o meu parceiro na época e não consegui parar de pensar na morte. Amigos tentaram me confortar com o clichê “não era a sua hora”, mas o pensamento que mais me acometia era “e se tivesse sido?” Então eu não passaria de mais uma cifra nas estatísticas anuais de vítimas de acidentes de trânsito. Não consegui mais ver o mundo do mesmo jeito. Tudo o que me agradava, passou a me agradar mil vezes mais, como se os meus sentidos tivessem sido aguçados por alguma substância tóxica. Em contrapartida o que me desagradava, passou a irritar-me também mil vezes mais.
Achando que o problema estava no Brasil, perguntei ao amigo pen-pal se o convite dele de me acolher por alguns dias em seu lar ainda estava de pé e ele confirmou. Cheguei aqui no dia 6 de março de 2004. Fui muito bem acolhido por ele mas estava fazendo muito frio. Foi uma alegre ocasião conhecê-lo pessoalmente depois de tantos anos. Tínhamos muito o que conversar. Entre outras coisas ele comentou que na mesma rua (a qual não era muito comprida) morava uma brasileira, casada com um holandês. Eu pedi mais detalhes mas ele disse que era tudo o que sabia. No dia seguinte, saí à procura desta mulher. Hoje eu me pergunto porque fiz isto. Eu havia acabado de chegar do Brasil, de onde eu nunca havia saído antes disto, por que esta necessidade de religação com as mesmas pessoas que eu havia acabado de deixar para trás? Eu não saberia a resposta à esta pergunta mas...
...a rua esta deserta. O frio intenso era uma grande novidade para mim. Havia uma pessoa, uma mulher juntando a grama com um gadanho. Eu perguntei em inglês se ela conhecia uma certa vizinha do Brasil, mas eu descobri logo para a minha agradável surpresa que estava falando com a própria. Os próximos dias foram certos de nos encontrarmos todas as noites para um bate-papo sobre a Holanda. Ela me contou coisas interessantes sobre este país onde ela morava aqui já há 30 anos na época, mas acima de tudo, me deu um conselho: Nunca compare o Brasil com a Holanda. Este conselho dela talvez tivesse sido o motivo de ela ter morado três décadas felizes aqui. Bem, eu só queria ficar três meses, então esqueci o conselho.
O destino quis diferente e eu voltei por motivos de ‘reunião familiar’. Eu havia conhecido alguém e queria muito saber: “e se...?”. A reunião familiar durou alguns anos mas foi um fracasso no final das contas mas no ínterim conheci um outro alguém, com quem até o momento posso dizer que estou feliz. Naturalisei-me, aprendi a língua, tenho um emprego. Falam-se de ‘adaptação’, como se este nome fosse exclusivo para brasileiros que abandonaram o seu país. Acho o nome vago, pois enquanto vivemos, estamos nos adaptando. Não importa onde. Mesmo para os entes queridos que ficaram no Brasil ou para os holandeses que aqui vivem e sempre viveram. É preciso adaptar-se com as novas expressões, gírias, informática, telefonia, política e assim vai. Tudo passa e nada continua o mesmo.
Indo de contra ao conselho da brasileira que eu conheci na época, tenho dificuldades, sim, em ‘não comparar as coisas’. Estou certo que é próprio da minha mente fazer isto e no meu caso, pelo menos, não tem contra-indicações. Se eu fizesse uma lista de coisas com as quais eu tinha dificuldade de lidar quando morava no Brasil e outra sobre as coisas com as quais tenho dificuldade no momento na Holanda, eu diria que ficaria meio a meio. Ou seja, troca-se um par de problemas por outro, mas sempre haverá um par com o qual sempre ter de lidar. Eu nunca vim para a Holanda ‘não ter problemas’, eu vim para tê-los, com a diferença de que eu queria ter alguém com quem partilhá-los e que quisesse partilhar os seus comigo. Uma observação: apesar disto, quando vir morar aqui em definitivo, vim para ser feliz e feliz de verdade. Não somente razoavelmente feliz, mas extremamente, feliz ao ponto de causar inveja. Já que não morri naquele acidente, pretendo gozar de cada segundo da minha vida de forma exagerada, extravagante , recalcada e transbordante. Eu já tenho resposta ao “e se...?” mas eu só a obtive por meio de comparações. O que funciona para uma pessoa, não funciona para outra. Cada um terá a sua resposta em seu próprio tempo e quando a tiver, estará contando a sua própria narrativa para os próximos brasileiros vindo morar aqui, daqui a 30 anos.