Ostensivamente, vivemos um período de transição na história da humanidade caracterizado por rupturas e desajustes que produzem insegurança e angústias diante as incertezas sobre os rumos da evolução social, tecnológica e ética da sociedade. Paralelamente, a perplexidade que aflige a maioria da população acuada pelos problemas de sobrevivência constitui um estímulo para pensarmos criticamente essa realidade controvertida e contraditória.
É espantoso o grau de mistificação usado pelos formuladores da política econômica ao induzir a população a acreditar na solução de seus problemas a partir de um indicador estatístico abstrato, freqüentemente manipulado, afirmando que o crescimento da taxa do PIB (Produto Interno Bruto) seria o único caminho para o progresso e o bem estar.
A falácia do crescimento pode melhor ser observada nos países em desenvolvimento ou “emergentes”, assim conotados com base no PIB. Antes, os ganhos das corporações transnacionais eram contabilizados pelo país-sede da empresa, para onde os lucros foram remetidos. Na contabilidade atual, os lucros são atribuídos ao país da localização das fábricas, embora não permaneçam lá. Oculta-se, ou não, um fato básico: as empresas dos países ricos exploram e expatriam os recursos dos pobres, chamando isso de “desenvolvimento”.
Outro paradoxo embaralha ainda mais o indicador do PIB. A onda de crimes nas áreas metropolitanas é um dos exemplos da falácia do crescimento com efeito desastroso. Uma vez que impulsiona uma próspera indústria de proteção e segurança que fatura bilhões, atua como poderoso estimulante dos negócios das companhias de seguro, aumentando consequentemente o PIB. É a realidade mais uma vez contradizendo o discurso otimista do governo e dos empresários.
Não existe consenso entre os cientistas sociais sobre o significado do termo “desenvolvimento”, freqüentemente confundido com crescimento econômico. Porém, nos últimos anos, foram introduzidos critérios sociais e qualitativos para avaliar os avanços em direção ao desenvolvimento com sustentabilidade. Segundo as organizações multilaterais _ BIRD, BID, UNESCO_ ao avaliar o estado da sociedade devemos considerar a economia como a atividade destinada a resgatar o sentido do trabalho e da vida, refletindo o grau de cooperação e solidariedade alcançado pelos membros da sociedade. Assim, muito mais do que números abstratos e manipulados, é considerado o cuidado com que o coletivo se dedica aos mais fracos, aos deserdados e discriminados - os verdadeiros indicadores do progresso humano rumo à sociedade sustentável.
Amartya Sen, prêmio Nobel de economia, define o desenvolvimento como o processo de ampliação da capacidade de os indivíduos terem opções, fazerem escolhas. Relativiza os fatores materiais e os indicadores econômicos e insiste na ampliação do horizonte social e cultural da vida das pessoas. Os índices de desenvolvimento humano (IDH) levantados e calculados nos últimos anos destacam as possibilidades das pessoas levarem adiante iniciativas e inovações que lhes permitam concretizar seu potencial criativo e contribuir efetivamente para a vida coletiva. Para Sen, os valores éticos dos empresários e governantes constituem parte relevante dos recursos produtivos, pois orientam para investimentos produtivos e inovações tecnológicas que contribuem para a inclusão social. Assim, quanto maior o capital social – a rede de relações sociais e o grau de confiança recíproca – menor a corrupção.
Seguindo esse raciocínio, animemos-nos com as novas idéias sobre o desenvolvimento como a possibilidade de “poder contar com a ajuda dos amigos”, como a possibilidade de levarmos adiante iniciativas e inovações, concretizando nosso potencial criativo. A cooperação e a solidariedade entre os membros da sociedade que assim transformam o crescimento econômico destruidor das relações sociais em processo de formação de capital social. E palmas para o desenvolvimento como liberdade!!!