Viver na Holanda é uma experiência gratificante em muitos sentidos: quatro estações bem definidas e todas belíssimas, pleno exercício da palavra ‘liberdade’, prosperidade material, menos preconceito, menos diferenças sociais, um dos mais baixos índices de desemprego de toda a Europa e um dos salários mínimos mais altos do mundo. Um dos índices mais baixos de analfabetismo, mortalidade infantil e acidentes de trânsitos. E a lista pode ser ainda mais longa. Os motivos citados parecem-me suficientes para que brasileiros(as) com parceiros(as) holandeses(as) decidam regressar à Holanda depois de vários anos fora e que os aqui vivendo, não tenham planos a curto prazo de retornar em definitivo ao Brasil.
Toda moeda tem o reverso. A ‘etiqueta de preço’ está por dentro. O dia-a-dia pode ser um tanto exaustivo, estressante, senão irritante. E isto acontece porque a maneira com a qual nós, brasileiros, lidamos com os nossos problemas, obedece um ritmo diferente do dos holandeses. No Brasil fala-se muito sobre ‘rir da própria miséria’, isto é, manter um enfoque otimista mesmo quando não há motivo para tal. Pois bem, nossos novos vizinhos pensam diferente. Eles estão bem conscientes de que nasceram num país próspero (sem falsa modéstia) e que vivem num dos países mais democráticos do planeta, se não for o mais de todos. Algumas coisas, porém, ainda poderiam ser aprimoradas por meio de sugestões democraticamente feitas, nunca impostas e com certeza, nunca em tom de reclamação. Afinal, as duas qualidades seguintes, extremas em si mesmas, nunca ajudaram um país a progredir: resignação e radicalismo.
Na coluna anterior, eu discuti sobre ter mente aberta concernente às diferenças culturais de um país para outro. Nesta presente coluna, eu gostaria de compartilhar um pouco da minha visão quanto a diferenças sociais. Esforcei-me em escrever um texto leve e agradável de ler. Adoraria dar prosseguimento a este tema, que eu acho tão fascinante e infindável. Dividirei o assunto em subtemas. Os de hoje serão: padrão de vida, fé, futebol, integração.
Padrão de vida
O padrão de vida aqui é alto se comparado aos demais países europeus, mas ao mesmo tempo, o país conta com uma renda melhor distribuída. O que significa isto na prática? Significa que se por acaso estiver na rua à altas horas da noite e o seu ônibus demorar, é provável que você junto com várias outras pessoas (que ao meu ver, poderiam perfeitamente dar-se ao luxo de um táxi, que os levasse confortavelmente até a porta de suas casas) aferram-se à convicção de que usar o seu dinheiro sabiamente é algo desejável a se fazer, mesmo em condições extremas, como sob uma nevasca. Em nosso país, (em situações bem menos adversas) ninguém hesitaria em tomar um táxi mesmo estando com ‘o dinheiro contado’.
Lá em casa quando dizemos ‘estou duro’, estamos realmente querendo dizer que as reservas financeiras esgotaram-se por completo. Aqui se diz: Ik heb geen geld (não tenho dinheiro) sem significar ‘estar no vermelho’ até o próximo salário; antes que houve um certo ‘esquecimento’ de sua parte de passar no caixa rápido ou falta de tempo de transferir dinheiro da conta de aplicações para a conta de uso diário. Contar uma história triste para justificar inadimplência não toca o coração de ninguém. Talvez seja esta a chave de haverem tão poucos mendigos aqui.
Morar num país igualitário tem lá as suas vantagens. E as suas desvantagens também. Se tiver renda própria, o seu parceiro esperará que as contas sejam ‘rachadas’, todas elas. Caso um holandês, de certa feita, faça questão de pagar toda a conta após um delicioso jantar num restaurante (para mostrar o quanto é generoso), não tenha sombra de dúvidas de que numa próxima ocasião, ele lhe entregará a conta. Com um belo sorriso no rosto, ainda por cima. Se isto lhe ocorrer, diga a frase em holandês do parágrafo anterior.
O cidadão holandês é, no entanto, generoso e dador. Tudo gira em torno de princípios e não daquilo que o dinheiro pode comprar. Várias entidades fazem campanha de tempos em tempos para arrecadar dinheiro, sejam elas instituições de caridade (que lidem com problemas relacionados à pobreza no terceiro mundo ou em países em desenvolvimento), ou que lidem com saúde (reumatismo ou câncer) ou qualquer outra forma de ‘boa causa’, todas podem contar com a mão generosa do holandês. Uma cena muito comum por aqui é uma pessoa indo de casa em casa com uma caixa devidamente identificada como pertencente à Cruz Vermelha solicitando qualquer quantia que você queira ou possa depositar. No mais é cada um por si. Uma casa lotada de familiares (desempregados), onde uma pessoa tem de trabalhar para sustentar a todos os demais é uma cena bem rara por aqui. Ou pelo menos eu nunca vi.
Fé
O brasileiro é um povo religioso por vocação. ‘Qual a sua religião?’ é uma das perguntas mais feitas por brasileiros. É parte daquilo que somos. É como fazer parte de um clube. As outras perguntas neste sentido deverão ser: ‘Qual o seu time de futebol?’ (ou a estranha pergunta que eu nunca soube responder e muito menos esticar o assunto quando esta pergunta me era feita: você é rubro-negro ou tricolor?). Mas voltando ao assunto ‘religião’, nós brasileiros falamos no nome Deus com mais frequência do que um holandês mediano. Eles usam, porém, o nome de Deus em palavrões (o que é bastante objetável por aqui) e em exemplos como ‘Graças a Deus’ ou ‘se Deus quiser’. Em holandês sequer existe uma palavra para ‘fé’. Eles tem a palavra "geloof", que pode significar tanto crença quanto religião (apesar de o substantivo "religie" existir, mas muito pouco ou nunca usado). Isto fala muito dos holandeses. ‘Apegar- se a Deus’ na horas de dificuldade é algo que se ouve com freqüência em nosso país, mas prepare-se para esquecer esta frase, mesmo depois que começar a entender o idioma. Talvez ter fé seja uma das coisas que nos torne menos exigentes e consequentemente menos estressados quanto aos problemas do dia-a-dia.
Segundo um estudo realizado pelo Instituto Central de Estatística (em holandês: Centraal Bureau voor de Statistiek) de 2007, 44% das pessoas neste país declarou não se afiliar à qualquer religião, ao passo que 28% declarou-se católico romano. Uma pequena parcela da população (9%) declara-se membro da Igreja Reformada Neerlandesa. Trata-se do cisma, do cisma, do cisma da Igreja Católica. Estes católicos reformados encontram-se, em sua maioria, no sul do país. Como se vê, tratam-se de minorias, fora das grandes cidades. O Papa já esteve várias vezes no Brasil, sempre com ampla cobertura da imprensa e com o devido respeito ao cargo por ele ocupado. A Holanda, porém, recebeu apenas uma única visita papal em 1985 e esta única vez foi desastrosa. O Papa João Paulo II foi recebido literalmente ‘com sete pedras nas mãos’ e as ruas ficaram incomumente desertas durante toda a visita papal. Desde então nunca mais se falou em planos de uma próxima visita.
Futebol
E por falar em futebol (já que os holandeses comprovaram este ano que são bons de bola), quando menos se espera ou quando se acredita que futebol não tem a menor influência neste país, é quando se toma um trem cheio de barulhentos (leia-se: empolgados) torcedores do Ajax /pronunciado: aiaks/ com camisas e toucas características do time, dirigindo-se para um dos grandes estádios deste país, onde o time enfrenta o outro famoso grande time, chamado Feyenoord. Este tipo de encontro causa situações semelhantes a quando dois grandes times brasileiros se enfrentam (a exemplo do Fla-Flu e do Ba-Vi).
Os holandeses não são pessoas ‘frias’, parafraseando a palavra que alguns brasileiros usaram ao me perguntar como os holandeses são. Eles adoram festas, música, futebol e viagens. Mas são péssimos dançarinos. Eu nunca vi um holandês fazendo outra coisa, até hoje, senão mexendo os dedos dos pés ao rítmo de uma canção. Sambar, requebrar ou ‘forrozear’ são termos sem equivalente em holandês. Certa feita eu participei de aula de gafieira aqui em Amsterdã. Os alunos (holandeses, em sua maioria) estavam empolgados com a aula mas dançar mesmo eu só vi a professora fazendo. Os gostos musicais parecem que vão de ‘extremos’ como batidão (daí a fama do DJ Tiësto) quando por volta de uns 15 anos suavizando para bossa nova e fado quando por volta dos 50 e 60. Bossa nova é, a propósito, muito popular por aqui mas mais como música de fundo.
No mais eu diria que um holandês é o melhor parceiro que se pode ter. Eles ficarão ao seu lado em todas as circunstâncias, mesmo que eles não entendam exatamente o que está acontecendo. Quando um holandês que se relaciona com alguém de outro país, ele geralmente está aberto para o fato de que o seu modo de ser e viver difere muito do da pessoa com quem vivem.
Integração
E finalmente conhecer a língua de modo suficiente. Não somente com o intuito de conquistar a simpatia dos holandeses ao seu redor mas por motivos deveras práticos. Placas amarelas postas de último minuto avisando que a partir de uma certa data será proibido deixar a bicicleta para trás, senão ela estará sujeita a confisco, alterações de horários no transporte público e avisos sonoros de alteração de plataformas para trens são todos feitos em holandês. Cartas da prefeitura, declaração de renda e toda e qualquer alteração no domínio público que visa o público holandês é feito apenas em holandês.
Diferente de países como a França e a Espanha, onde as pessoas não se sentiriam à vontade para falar num idioma que não fosse o próprio, os holandeses falarão com o turista com prazer, em inglês. Esta disposição muda quando se está claro que não estão mais lidando com um turista, mas com um alguém que vive aqui permanentemente. Apesar de que compreendem muito bem o fato de que a língua deles é “complicada” (eu diria que a língua está complicada pois ao mesmo tempo que eles enchem a língua de termos ingleses, o jornal com notícias de hoje ainda usa expressões do século 19), eles dão um prazo, o qual eu ainda não entendi a extensão, para se aprender o idioma. Eu me sinto embaraçado quando começo a ouvir críticas sobre ‘estrangeiros’ que vivem aqui há vários anos e ainda não dominam o idioma. Eu chutaria que 10 anos é a data limite da paciência dos holandeses, o deadline, para alguém começar a falar a língua. Ao meu ver, trata-se antes de um mero capricho, um sonho de integração, idealizado um dia por alguém do que a real e premente necessidade da língua para comunicação.
Continua numa próxima coluna.