Por Nancy Niemeyer

Encerrou ontem, dia 6 de fevereiro, a edição XL do Festival Internacional de Cinema de Roterdã (IFFR) em clima de festa, tanto na festa oficial de encerramento, no Doelen, como na festa de todos-os-dias, no Schouwburg. Só que, este ano, nessa super edição do festival, houve festa também no Lantaren Venster, do outro lado da ponte, que foi muito prestigiada. Nesses eventos, a gente vai se esbarrando com celebridades internacionais e com aquelas que vemos nas notícias locais semanalmente, como o ex-prefeito da cidade e atual Ministro da Defesa, Ivo Opstelten, sempre animado com as iniciativas culturais de Roterdã.
Aliás, o que há de mais interessante no festival é justamente a história de cada pessoa. Por exemplo:
Tivemos a oportunidade de conversar com quatro integrantes da primeira turma de mestrado do mundo em Curatoria de Cinema (Film Curating), ministrado pela Universidade de Londres. Os jovens Tiago Di Mauro (Brasil), Gaia Greco (Itália), Clare Holden (Inglaterra) e João Laia (Portugal), juntamente com mais treze colegas, visitam o IFFR pela primeira vez e estarão a seguir presentes no Festival de Cannes, em maio próximo. Além da diversidade de nacionalidades da turma, há diversidade de especializações de cada um dos participantes, espelhando a realidade desse campo profissional. O que eles têm em comum é a paixão pelo filme, seja assistindo ou dirigindo.
Elogiaram o programa tão bem elaborado de exibição de curtas em compilações inteligentes do IFFR e a oportunidade de quem faz cinema apresentar sua arte; Lara Lima, Marcelo Lima e Renato Coelho, da Lira Cinematográfica, submeteram o curta-metragem "Um Par" ao IFFR e foram selecionados. "Um Par" já havia sido apresentado em mais de 30 festivais no Brasil, mas no IFFR teve sua première internacional. Como resultado de um projeto final da faculdade (FAAP), perceberam como trabalhavam bem juntos e se decidiram por criar a própria empresa, que já está produzindo outros filmes de curta e longa-metragem. O sonho deles é continuar a produzir e filmar projetos selecionados, buscando fundos de financimento que os desatrele da produção puramente comercial.
Uma senhora de 72 anos sentou-se ao meu lado para o filme da abertura. Ela frequenta o festival há mais de 30 anos e pensa sempre que já viu demais e que este vai ser o último ano. No entanto, após sessão, comenta "como posso deixar de vir ver algo tão lindo?";
Um casal de Amsterdam programa-se com um ano de antecedência. O quarto do hotel é reservado desde o ano anterior e os filmes são selecionados e marcados no primeiro dia online. "Nossas famílias, colegas e amigos já sabem que não adianta marcar nada para este período do ano - a gente só quer saber do festival!".
Quanto aos melhores filmes, posso compartilhar os que adorei e que já estão entrando em cartaz em vários cinemas da Holanda e do mundo, mas isso é motivo para outra coluna, não é mesmo?
Por fim, resta uma palavrinha sobre os filmes brasileiros nesta edição avantajada (XL) do IFFR. Com cinco prêmios no festival de cinema mais importante do país - Brasília - o filme de Sérgio Borges, "O céu sobre os ombros", foi muito bem aceito pelo público e profissionais de cinema, apesar de não ter faturado um troféu Tigre. No problem! Os brasileiros na Holanda gostaram muito, viu, Sérgio?
Os três curtas também trouxeram o inovador e o experimental a Roterdã, mas de uma forma simples, intrigante, inteligente. Quanto aos dois outros longa-metragem - apesar da "força" do Hubert Bal Funds para um e do projeto muito criativo do outro - não conseguiram sensibilizar a platéia nem a crítica. Ouvi e recebi comentários como "não gostei", "que cinema experimental é esse cheio de clichês?", "o país está avançando em conquistas democráticas e em estabilidade econômica e esses jovens parecem não saber mais do que falar", "agora eu entendo Nelson Rodrigues quando num rompante afirmou que os jovens são todos uns imbecis", "por que trouxeram poucos filmes e justamente esses dois?", "o filme me decepcionou pois esperava muito mais conteúdo","quem é que está fazendo a seleção dos filmes do Brasil?"... Bem, muitas vezes, a versão final do filme não corresponde à ambição inicial do projeto. Vamos torcer para anos melhores de representação dos talentos brasileiros nos festivais de cinema da Holanda.