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COLUNAS
Daniel dos Santos - tem 36 anos, nascido em Santos, SP, foi professor de inglês e guia de turismo em Salvador, BA por dez anos. Faz estudo de Bacharelado em Comunicação em Inglês. Mora atualmente em Almere, Flevoland.
 
As Quatro Estações (bem definidas)
 
Data: 04/03/2011
 

 

Eu lembro de Santos, onde nasci e vivi até os 17 anos e de suas estações do ano, que faziam jus à época do que em outras partes do Brasil onde vivi. Alguns verões na década de 80 do século passado foram  insuportavelmente quentes.  Do inverno, a única coisa que lembro, eram os dias interminavelmente nublados e chuvosos, com respingos grossos e fortes, os quais guarda-chuva algum freava. Lembro-me de noites frias, mas também de confortar-me à noite com um aconchegante edredom. A primavera seria a estação das flores, mas nunca via flor alguma nas vias públicas, pelo menos nada além das dentes-de-leão (nós crianças as chamávamos equivocamente de ‘margaridas’) e dos lírios.  Outono, estação das frutas, mas onde? Bananas proliferavam nos bananais no quintal de casa, mas achava exagerado chamar um simples cacho de bananas de “frutas”.  Onde é que as quatro estações fazem realmente jus ao nome? Aqui na Holanda. 

Verão

Dizem que está ficando mais quente, mais frio, que é o efeito estufa, que é culpa do cidadão comum ou da ganância das grandes indústrias. Eu não sei. O que sei é que o verão holandês "malmente" bate os 35 graus em raros dias de sol. Isto é o que eles chamam de hittegolf (onda de calor).  No geral eu diria que as temperaturas variam no verão de 20 a 25 graus,  convidativo para deitar-se ao ar livre mas a sensação térmica cai quando o sol é coberto por nuvens. E apesar de que é no outono que deveríamos ter frutas, as macieiras e os pessegueiros já estão lotados nesta época. 

O verão começa meio tímido na Holanda, por volta do final de junho mas nem todos os anos é igual. Às vezes o calor só começa por volta da segunda semana de julho.  Da mesma forma, ele pode despedir-se de nós no começo de setembro. E durante esta transição (primavera-verão ou verão-outono) tenha sempre o seu guarda-chuva por perto. Durante este período, nunca se sabe quando e se vai chover, de forma que mini-guarda-chuvas dobráveis são uma mão na roda aqui na Holanda. Se souber andar de bicicleta e bem, a Holanda é a sua grande chance de demonstrar as suas habilidades como ciclista por guiar com apenas uma das mãos, enquanto com a outra segura o guarda-chuva, ao mesmo tempo em que carrega uma sacola de compras pendurada no guidão. 

Não jogue as suas roupas finas do Brasil fora. Algumas podem ser bem úteis na Holanda durante uma hittegolf. Conforme mencionado, dura apenas alguns dias. Elas não terão utilidade qualquer (nem mesmo como roupa de baixo) pelos próximos 300 dias.  Chinelos e sandálias havaianas poderão ser usadas neste curtíssimo período. Famílias inteiras e grupos de adolescentes reúnem-se ao longo de lagos ou parques (ou qualquer canal mais próximo) para aproveitarem o máximo do sol. A liberdade de estar com pouca roupa é gratificante, porém estranha ao notar-se homens e mulheres desnudando-se da parte de cima de suas roupas ou expondo as pernas (brancas) pela primeira vez após quase um ano.  Eu vejo poucas pessoas se protegendo mesmo quando a temperatura beira os 35 graus, o que é tão prejudicial quanto 35 graus no Brasil. Faz-se necessário usar um protetor solar e beber muita água. 

As casas holandesas foram projetadas para suportar o frio intenso e não o calor. Durante uma hittegolf as casas podem virar verdadeiros fornos. Abrir portas e janelas é recomendável e de preferência certificar-se de que alguma coisa na casa esteja aberta. Ter um ventilador nestas horas é tudo o que se quer. O verão holandês segue belíssimo, com suas árvores  exuberantes exibindo o seu verde mais verde e parece que todo mundo está com um sorriso estampado no rosto. 

Outono 

Eu assisti uma vez quando criança um desenho animado em que uma fada voa ligeiramente por sobre as árvores e ao tocá-las com a sua varinha de condão, as folhas mudam imediatamente de cor verde para ferrugem. Eu sempre penso nesta fada quando vejo as árvores no começo do outono. As folhas secam, ficam pesadas e desprendem-se das árvores. O que me faz lembrar a queda das folhas dos tão chamados chapéus-de-sol (lá em Santos a gente as chamava de pé-de-cuca), cobrindo todo o chão com suas folhas largas e espessas.  As árvores na Holanda tem folhas menores de três pontas mas que fazem o mesmo ‘estrago’ durante o outono.  A prefeitura é reponsável pela limpeza das ruas e dispõe de carros especiais que literalmente varrem as folhas para dentro de si, por meio de uma espécie de equipamento à vácuo engatado na parte de trás deles. Estes carros, no entanto, não retiram as folhas caídas imediatamente em frente da porta de sua casa. E caso tenha um jardim de frente, terá de retirar as folhas sozinho/a e depositá-las no tonel para ‘lixo verde’.  Onde eu moro, este tonel plástico para lixo verde é o mesmo para lixo orgânico, porém separados por uma divisória no meio do tonel.  Costumam ser recolhidos de duas em duas semanas. 

Esta época do ano é bem romântica. É época de tirar os casacos do guarda-roupa (que ficaram lá, infelizmente, por pouquíssimo tempo) e andar de bicicleta por entre as folhas. Lembra até o filme Outono em Nova York. A parte menos romântica é quando o outono vem junto com rajadas de vento. Não somente folhas, mas também galhos finos e frágeis, voam aleatoriamente por entre as árvores e um deles pode cair exatamente em seu rosto. No Brasil a gente se preocupa menos com vento. Eles são esparços. Mas aqui eles podem durar vários dias seguidos. Os ventos aqui são classificados por sua velocidade: 10 km por hora (seria um vento de força 10, uma brisa praticamente), vento de 20 km ou 25 km por hora são ventos comuns; de 30 km e 40 km são um tanto fortes e é preciso botar força para pedalar; ventos de 50 km por hora são fortes o suficiente para fazer uma pessoa desistir de andar de bicicleta e tomar um ônibus ou tirar o carro da garagem; ventos de 60 km, 70 km ou 80 km por hora definitivamente não combinam com bicicleta; e ventos de 90 km, 100 km e 110 km são verdadeiros tornados. Em 2006 tivemos ventos de 120 km por hora durante todo um dia e deu-me a impressão que eu estava nos estúdios do filme Twister.  Parte de uma universidade desabou numa cidade grande e infelizmente algumas pessoas morreram. 

E por falar em bicicletas, as famosas omafietsen (de guidão alto) são uma delícia de pedalar porque a coluna fica ereta e o freio é no pé. Mas eu aconselho para brasileiros menos acostumados com este tipo de bicicletas: bicicletas com marcha. Deixe as omafietsen para os holandeses que nasceram em cima de bicicletas. 

Inverno 

Não vou dar ênfase ao frio de zero grau ou aos longos períodos de nevasca que retornaram ao país após 20 anos. Tampouco falarei aqui nos transtornos causados por  trens em atrasos, vias cíclicas temporariamente inutilizadas ou vias públicas que mais lembram um rinque de patinação. Se você está na Holanda há um ano, você já conhece o drama. Eu prefiro compartilhar aqui como sobreviver o inverno.  Meu primeiro conselho para quando as vias ficarem ‘inviáveis’ é: tome ônibus ou ande até a estação de trem ou metrô. Acorde mais cedo e se programe um pouco melhor. A caminhada no frio não é tão ruim, desde que se esteja bem agasalhado. E ‘bem agasalhado’ é que é a questão toda aqui: pode-se proteger o corpo, mas e o rosto? Ele fica exposto o tempo todo, não é? É, mas as únicas partes do rosto que sofrem diretamente com o frio intenso são orelhas e lábios. 

Eu ouço brasileiros reclamando constantemente do dores de cabeça durante o inverno e eu não tenho a menor dúvida que vêm da falta de proteção na cabeça. Não tente equiparar-se aos holandeses que não se protegem. Somos brasileiros e nosso organismo nunca vai acostumar-se à temparaturas que beiram o zero. Lembre-se que os constantes ventos neste país tornam a sensação térmica ainda mais baixa. Morrer congelado não é simplesmente quando a gente cai no gelo fino enquanto patina e retorna à superfície boiando num cubo gingantesco de gelo, a gente pode morrer congelado simplesmente andando nas ruas à baixas temperaturas. Portanto, proteja-se. Compre toucas felpudas que protejam a cabeça inteira.  Algumas são bem modiosas e elegantes. Para os lábios recomendo manteiga de cacau. Não subestime o valor delas. Seus lábios podem secar ao ponto de sangrar caso fiquem expostos ao frio por algumas horas seguidas. Use xales e luvas sempre. Tenha vários. Não são simplesmente acessórios ‘bonitinhos’, são vitais para a sua sobrevivência durante o inverno holandês. 

Os meus conselhos são muito gerais. O que serve para um, talvez não sirva para outro, mas a idéia é sempre: se tem mais frio em determinado local do corpo, cubra-o. Principalmente pontas como dedos e cabeça. Meias felpudas (tipo meias de ski) são excelentes para o inverno. Os seus pés agradecem. Assegure-se que os seus sapatos/botas sejam realmente à prova d’água. Quanto à calças, eu particularmente uso long-jongs (tipo meias-calças, porém masculinas) e elas fornecem um calor extra às calças durante este período do ano.  Não sei o que as mulheres podem fazer para aquecer as pernas durante o verão, mas definitivamente não é época para apenas meia-calça debaixo de mini-saia. Não aquecer as pernas suficientemente pode fazer as pernas criarem um ponto esbranquiçado (causado pelo cal da água) que coçará até sangrar. 

No mais, o inverno intenso tem o seu lado positivo: belíssimas fotos em paisagem branca de neve, o colorido das roupas se destacando ao fundo branco e a gente presta mais atenção às pessoas do que ao ambiente. Sem contar a delícia que é dormir, de preferência se já há alguém lá preaquecendo o local. 

Primavera

Estação das flores, claro. Principalmente das tulipas.  Nunca visitei o Keukenhof, mas quem mora ou já morou em Noord-Holland vê diariamente tapetes e mais tapetes de tulipas bem pertinho de casa durante todo o mês de maio. As primeiras flores são as crocussen: pequenas, coloridas e delicadas. A prefeitura faz questão de plantá-las em canteiros de vias públicas e em praças. O gramado mais simples e mal-cuidado fica embelezado com os dente-de-leão, que se espalham voluntariamente por todo o lugar, deixando tudo com uma mescla de amarelo sobre verde que me lembra a bandeira do Brasil. Os holandeses as chamam de onkruid (mato) mas eu as acho simplesmente magníficas.  

As tulipas não brotam do nada simplesmente por que aqui é a Holanda. Elas precisaram ser plantadas com antecedência e muita antecedência: em outubro e novembro do ano anterior. Compram-se bulbos (bolinhas) nas tuincentra (lojas de jardinagem, grande negócio, aqui na Holanda) e apenas em maio do ano seguinte elas brotarão. Isto porque as tulipas precisam acostumar-se ao solo. Mas caso não soubesse disto, ainda dá tempo de visitar um tuincentrum perto de você e comprar bulbos controlados para serem plantados na época ‘errada’.  Para isto é preciso prestar atenção aos detalhes a respeito da planta que se quer comprar.  Os tuincentra tem plantas cultivadas artificialmente para qualquer época mas infelizmente para expô-las ao ar livre é preciso de temperaturas pelo menos acima de 10 graus.  Lembre-se de que algumas plantas são apenas para o mesmo ano; elas não sobreviverão até o ano seguinte. 

As rosas que brotarem neste período se exibirão aos seus olhos durante todo o verão. E é nesta hora que eu acho a Holanda um país sem igual: quatro estações perfeitamente bem-definidas e harmoniosas assim como os quatro concertos de Antonio Vivaldi sobre as Quatro Estações

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Comentários



jonas - 09/05/2012
Adorei o texto.

Bibi - 22/01/2012
Conhecer as 4 estações é um privilégio de poucos! Beijos

Grace Olsson - 08/06/2011
adorei esse artigo...Amo as tulipas...Aí ou onde for..dias felizs

José Paulo Freire - 04/03/2011
Este site está cada dia melhor! O layout mais limpo, escritores de primeira linha, textos gostosos de serem lidos. Belo trabalho, Daniel. Continuarei vindo aqui para saborear suas colunas.

Daniela Roschel - 04/03/2011
Em São Paulo costuma-se dizer que voce tem que sair de casa preparado para as 4 estações e aqui a gente ve realmente isso que voce disse na matéria , cada coisa ao seu tempo. Mas não consigo me acostumar ao frio, lembro do meu primeiro inverno aqui e me perguntei como as pessoas aguentavam tanto frio, nunca pensei sentir tanto frio na minha vida. O meu segundo inverno aqui não reclamei tanto mas também não consigo me acostumar, gostoso é sair nas ruas de sandalinha a famosa rasteirinha e um vestido gostoso com o vento morno batendo nos cabelos. Mas cada estação aqui tem o seu charme principalmente a primavera, coisa mais linda. Parabens pelo texto bem inspirador.

Laureni - 03/03/2011
Simplesmente fantástico seu texto, e essa foto no campo de tulipas é o mesmo que ver um quadro. Video perfeito para encerrar. Continue nos presenteando com seus textos!
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