Este post é continuação ao post “No meio está a virtude”. Um dos últimos temas ali discutidos foi “integração” mas pensando melhor, este tema rende bem mais do que apenas alguns poucos parágrafos.
Integração é uma tradução comumente aceita para o nome inburgering em holandês, o qual é derivado do verbo “inburgeren” e significa basicamente ‘assimilar algo no sentido cultural’. Burger significa ‘cidadão’ e subentende-se que integrar-se está relacionado a comportar-se como um ‘cidadão’. Este é um dos nomes mais ouvidos por quem chega pela primeira vez aqui. Infelizmente o nome lembra mais as formalidades exigidas por lei para vir morar com o parceiro do que o aprendizado da cultura do país deste parceiro.
Do ponto de vista holandês, estar integrado tem algo a ver com o que se vê ou ouve exteriormente de primeira mão do que com o que se sente ou se pensa. Ou seja, outras pessoas confirmar o quanto o indivíduo está inserido na sociedade. Esta confirmação é feita de várias maneiras mas a principal seria defitinvamente a fluência no idioma local. Espera-se que quem more na Holanda por um longo prazo, e qual é muito subjetivo, expresse-se fluentemente e compreenda rapidamente informações fornecidas rapidamente no idioma do país. O conhecimento de um indivíduo é testado no mais alto grau quando se faz necessário falar ao telefone em holandês. É sempre possível falar em inglês mas quem faria isto para perguntar ao telefone o que deve fazer para naturalizar-se? A resposta da pessoa ao telefone poderia ser “aprenda o nosso idioma primeiro”.
Estar integrado envolve mais do que falar outro idioma. Envolve apreciar (e quem sabe participar) as manifestações culturais locais como o “Dia da Rainha”, Sinterklaas e Sint Maarten. Assimilar hábitos alimentares contam muito no processo de integração: pão com margarina e hagelslag (granulado de chocolate) no café da manhã, torradas com bolinhas (beschuit met muisjes) azuis e brancas quando um bebê do sexo masculino nasce (azuis e rosa quando nasce uma menina), arenque defumado, batata, batata, batata, etc. Caso os nomes acima soem mesmo estranho, é hora de reavaliar o quão integrado se está. Uma boa notícia: o tão popular entre os holandeses drops (balinha de anis) não é apreciado pela maioria estrangeira e é amplamente perdoado como exceção no processo de naturalização.
Vida social e piadas de holandês
Ter uma vida social também é importantíssima mas a grande maioria dos estrangeiros (entre os quais brasileiros) parecem viver contínua e confortavelmente envolvidos no mesmo núcleo de brasileiros e/ou demais expatriados conhecidos ao longo de toda uma vida aqui. Ao se visitar, por exemplo, um bar típicamente holandês, onde a voz de André Hazes (cantor de música popular holandesa, já falecido) alegremente canta “We houden van Oranje”, dificilmente há alguém não originalmente holandês presente ou cantarolando. Onde estão os novos holandeses e recém-chegados desperdiçando um momento precioso de interatividade cultural e intercâmbio linguístico? Pelo que parece envolver-se não é tarefa simples. Estar integrado não significa ter-se tornado um deles. Esta é uma barreira integrada pelo tempo e pela experiência, ou seja, o que sensibiliza um holandês e o afeta emocionalmente é um código gravado internamente, não escrito em lugar nenhum. Eles apenas o acham óbvio e o usam para interagir entre si.
O que faz uma piada holandesa ser engraçada para um holandês? Algumas piadas são parecidas com as brasileiras: baseadas em conclusões óbvias de que o objeto da piada não atingiu o seu objetivo. Eles têm “piadas de belga” que lembram muito as nossas piadas de português. Temos muitas piadas de papagaio que geralmente tem alguma conotação sexual. Esta conotação é praticamente inexistente em piadas locais e um holandês dificilmente entenderia o ponto e se entendesse, não acharia graça. Por outro lado, as piadas deles podem soar extremamente inofensivas e ingênuas aos nossos ouvidos. Julgue a piada abaixo e comente se riu ou se não achou a menor graça:
Um coelho entrou numa padaria. O coelho perguntou ao padeiro:
- O senhor tem torta de cenouras?
O padeiro responde:
- Não, senhor.
No dia seguinte o coelho retorna e pergunta novamente ao padeiro:
- O senhor tem torta de cenouras?
O padeiro responde:
- Não, não tenho. Sinto muito.
No dia seguinte o coelho retorna e pergunta novamente ao padeiro:
- O senhor tem torta de cenouras?
O padeiro responde, com um suspirando:
- Não, senhor.
O padeiro não consegue dormir e decide assar uma torta de cenouras no caso de o coelho passar pela padaria de novo. Ele levanta cedo a assa a dita torta.
O coelho voltou à padaria e perguntou ao padeiro:
- O senhor tem torta de cenouras?
O padeiro responde:
- Sim, senhor.
O coelho responde:
- Que nojo!
Eu não sei dançar tão devagar para te acompanhar
Se levarmos em consideração a história e a cultura local, entenderemos melhor o comportamento percebido nas pessoas. Trata-se de um país com uma maioria atéia mas até recentemente estava dividido entre católicos e protestantes. Tendo o país sido assim por tanto tempo, oras, hábitos de cunho religioso esconderam-se inevitavelmente ao longo de séculos no véu dos
tempos modernos. Entre estes hábitos estão a honestidade, o trabalho árduo, a praticamente total ausência de grandes festas populares nas quais as pessoas se embriagam descontroladamente, etc. Soa como uma feliz utopia mas a mesma nos leva a um grupo de pessoas que não faz idéia de como dançar e limita os eventos sociais a círculos de amigo ou parentes fechados numa sala de estar na qual cada pessoa tem a palavra enquanto os demais escutam e dão uma opinião. Quem não entender a língua ou o assunto em discussão (lembre-se sobre a barreira do tempo e da experiência) correrá risco de adormecer no assento. Pense nos aniversários holandeses. Fico imaginando o quão complicado o contrário também seria para um holandês envolvido entre brasileiros. Para nós é quase óbvio que todo ser humano saiba dançar ou fazer algum movimento que lembre uma dança. Música para alguns dentre nós só está razoável desde que esteja perto de atingir o limite permissível de decibéis e o simples comunicar-se é tentar concorrer com estes decibéis.
Independente do motivo pelo qual uma pessoa decidiu imigrar, ela encontrará motivos para sentir-se satisfeita, desde que tenha sido uma decisão própria e madura. Mas os esforços no sentido de integrar-se tem limites. Não faz sentido cobrar de um estrangeiro que saiba detalhes sobre o Dia da Rainha que alguns holandeses desconhecem. Falar holandês fluentemente é óbvio mas o quanto de esforço deve ser feito neste sentido quando a palavra nos é dirigida em inglês, pelo simples fato de que a pessoa que lhe dirige a palavra ter ‘concluído’ sozinho que o seu conhecimento de inglês é superior ao de holandês? Há quem considere isto educado. Mas este ponto de vista muda após anos de investimento e dedicação ao aprendizado da língua. Acaba mesmo se tornando um insulto. E quem nunca aprendeu inglês antes e está aprendendo holandês como segunda língua, como faz para se comunicar? Linguagem de sinais?
Alguns recém-chegados se perguntam em quanto tempo poderão aprender holandês. Alguns falantes da língua dizem que aprenderam em um ano. Outros dizem que em cinco. O tempo que levará para uma pessoa aprender holandês dependerá grandemente do contato que se tem com mesma. Um parceiro holandês que não fala português e que insiste em se comunicar em inglês, definitivamente não está ajudando parceiro brasileiro a desenvolver-se. A prática chegará por outros meios, como colegas de trabalho ou escola, vizinhos, televisão mas levará bem mais tempo.
Não podemos fazer você gostar mas podemos facilitar
Há muitos outros detalhes sobre integração que não são explanados em absoluto nos cursos de integração e que deveriam ser. O curso ensina como se deve preencher uma formulário de acceptgiro (parece com um cheque só que não baseado em crédito, mas em saldo positivo) o que é praticamente pouquíssimo usado. Interessante mesmo de se aprender no curso de integração é declarar o seu imposto de renda, já que todo mundo neste país o faz. É parte essencial da vida de qualquer cidadão, pois isto decidirá quem direito à um retorno financeiro, quem não tem e quem deverá retornar dinheiro ao receita federal. Muitas coisas são aftrekbaar (deduzíveis no imposto de renda) como por exemplo, um curso, o qual é comprovadamente essencial para a empresa na qual uma indivíduo trabalha ou o tipo de emprego que se está buscando. Mas quantos estrangeiros sabem realmente declarar a renda através do site da Belastingdienst (receita federal da Holanda)? A depender de onde clicar, o indivíduo receberá um interessante bônus ou dívida a mais em sua conta bancária.
História
Um outro assunto (menos importante) sobre o qual não se fala neste país é história antiga. Parece que a história da Holanda começou na
Segunda Guerra Mundial ao passo que a Holanda está repleta de fascinante história, a qual infelizmente, ninguém ousa falar. É vista como algo desagradável e que deveria ficar no passado. Eles provavelmente achariam horripilante a nossa história de Tiradentes, uma das datas civis mais importantes do Brasil que os livros de história da 5a série do ensino fundamental contam tão orgulhosamente, com uma foto de um homem esquartejado. Que importância pode ter o Dia da Ascensão de Cristo num país predominantemente ateu? A mesma pergunta vale para Pentecostes? E não menos importante, por que comemorar dois dias natalinos?
Pois bem, o que temos na Holanda? Uma edição especial da revista Elsevier mencionava 11 locais historicamente memoráveis. De quantos você sabia? Se já sabia de alguns, aprendeu por curiosidade própria ou foi-lhe ensinado no curso de integração?
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os túmulos chamados de hunnebed próximos ao vilarejo de Borger (18 km a leste de Assen) , que datam de 3200 A.C.
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o local habitado mais antigo da Holanda: o vilarejo de Ezinge, em Groningen (ano 47 A.D.)
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Dokkum, em Friesland, o local onde o missionário Bonifácio foi assassinado pelos frísios hereges.
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O Rode Klif, em Stavoren, Friesland, local onde ocorreu a Batalha de Warns (1345) e onde o conde Willem IV morreu durante a batalha. Há um monumento de pedras no local da batalha com os dizeres: ‘Antes morrer do que ser um escravo.’
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As 5 cidades holandesas que pertenceram à Liga Hanseática de 1356: Zutphen, Deventer, Tiel, Kampen e Zwolle.
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A vila de Heiligerlee, em Groningen onde a Guerra dos Oitenta Anos teve início em 1568.
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O planetário mais antigo do mundo, na cidade de Franeker, em Friesland, construído pelo astrônomo-amador Else Elsinga.
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O Afsluitdijk (dique do fecho), de 28 de maio de 1932, que conectou a Holanda do Norte permanentemente à Friesland e transformou o antigo lago Zuiderzee no atual lago IJsselmeer.
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O campo de refugiados de Westerbork, na província de Drenthe que serviu de passagem de 107.000 judeus para os terríveis campos de concentração espalhados na Europa Oriental, dos quais apenas 5.000 retornaram. A família de Anne Frank esteve aqui também. Dentre todos os que se esconderam no anexo secreto, apenas o seu pai, Otto Frank sobreviveu.
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A cidadezinha de Slochteren, em Groningen a qual serve milhões de europeus com gás natural extraído dali, desde 1959. Apesar de se rum dos fatores que mais contribuem para o PIB da Holanda, Groningen é considerada a província mais pobre do país.
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Uma cidadezinha chamada De Punt, entre Groningen e Drenthe que foi o cenário de um acontecimento muito triste e recente na Holanda: o sequestro de um trem em 1977 por 3 semanas por rapazes molucos que resultou na morte de 2 reféns. 6 sequestradores foram mortos. O diretor Hanso Smitman gravou um filme a respeito com o mesmo nome do local, em 2009.
O quão integrado você está?