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Retrato do Brasil - UM PASSEIO HISTÓRICO COM ECKHOUT
 
Data: 03/09/2004
 

Por Itala Holanda*

Na fachada, uma enorme flâmula exibe a exótica imagem de uma negra com chapéu de penas coloridas. Isto posto, além dos dizeres nos quais se lê “In Brazilië met Albert Eckhout”, produz o aperitivo do que está por vir. Ou seja, a mostra do pintor holandês, que retratou o Brasil de um jeito fascinante.

Dentro do museu, o livro de assinaturas registra exclamações entusiásticas: “Magnifique”, opina um canadense nas suas páginas. Outros olhares estrangeiros atentam para o exotismo da da fauna e da flora brasileiras, vislumbradas nas enormes pinturas que ora adornam paredes e salões do Mauritshuis (Casa de Mauricio), em Den Haag.

O livro repousa sobre a banqueta de uma enorme vitrine, que revela a gama de elementos brasileiros estilizados pelo pincel de Eckhout, como os tipos humanos, frutas e plantas tropicais, além dos objetos, cartazes e publicações acerca da mostra – o segundo aperitivo do evento.

De volta ao livro, observo que ele guarda impressões em português. Uma destas assinala num tom jovial e brasileiríssimo: “eu passei por aqui de novo!”. Certamente um espectador desejoso de manter contato, mesmo que anonimamente. Esse desejo de quem, vivendo no estrangeiro ou apenas de passagem, almeja esbarrar com os seus de mesma língua e cultura. Quem sabe, a tradução da mensagem, cheia de orgulho incontido, seria: “Eu sou brasileira, eu passei por aqui, eu também vi Eckhout”.

“Com Albert Eckhout no Brasil” (1610-1666) passa pelo Mauritshuis celebrando os 400 anos de nascimento da figura histórica que dá nome ao museu, ou seja, Johan Maurits van Nassau-Siegen, o nosso velho conhecido Mauricio de Nassau.

Pura brasilidade

A título de elucidação: Eckhout foi um dos artistas holandeses que integrou a comitiva do Conde João Mauricio de Nassau, governador-geral da colônia holandesa no Nordeste do Brasil, de 1637 a 1644. A ele coube a tarefa de retratar a natureza brasileira e seus habitantes, função que cumpriu com maestria, pois deixou para as futuras gerações o registro etnográfico, botânico e zoológico de um país sul-americano do seu tempo. Um país chamado Brasil.

A exposição do pintor holandês revela uma brasilidade até então desconhecida mesmo para muitos de nós brasileiros. Além de reconstruir os passos de uma época – o Brasil do século XVII, confronta-nos de modo impactante com as nossas influências culturais. Ali se respira, mesmo que momentaneamente, as nossas raízes índígenas, negras e mestiças. Eckhout pintou tipos humanos do Brasil de forma estilizada e em tamanho natural, e também, reproduziu plantas e frutas exóticas brasileiras numa bela série de naturezas-mortas.

Olhar holandês

Do ponto de vista histórico, a exposição de Eckhout é, evidentemente, atrativa aos olhos do público holandês. Os holandeses são inteiramente conscientes do papel do seu povo, na condição de comerciantes e viajantes, no comando de expedições de conquista e científicas ao redor do mundo. Existe um orgulho visível acerca disso. Por outro lado, denota-se um certo acanhamento em relação à época da colonização holandesa no Brasil. Há pontos obscuros sobre essa questão. Pontos por eles ainda não decifrados. Por exemplo: teria Nassau ignorado o sistema de escravidão reinante à época do Brasil colônia? O questionamento é delicado. O que a história conta é que Nassau estimulou os valores humanistas e promoveu o bem-estar social, permitindo a liberdade de religião e, diplomaticamente, acalmando ânimos alterados contra os holandeses no Nordeste brasileiro. Que, como administrador, saneou uma cidade, Recife, e construiu outra, Mauritsstad ou Mauricéia. Que sob o seu regime, floresceram o comércio e a cultura. Quando ouvem tal relato sobre os feitos de Nassau, eles esquecem a inquietação. Mesmo assim, a inquieta curiosidade acerca do passado é assunto da geração mais velha. Até porque, as novas gerações continuam passando ao largo de tais fatos. É que, simplesmente não há referência ao “nosso” Mauricio de Nassau nos seus didáticos livros de história holandesa.

É bom que se diga ainda, que os holandeses não estão vendo Eckhout em primeiríssima mão. Tal privilégio coube primeiro aos brasileiros, que receberam as obras do pintor holandês no bojo dos festejos do Brasil 500 Anos. A mostra itinerante percorreu, ano passado, quatro capitais brasileiras – Recife, Brasília, São Paulo e Rio - e foi visitada por quase meio milhão de pessoas.

Giro com Nassau

A coleção que ora se vê no Mauritshuis, o maior e mais valoroso conjunto de pinturas de Eckhout, não pertence, porém, nem ao Brasil nem à Holanda, mas aos dinamarqueses. Conta-se que Nassau costumava presentear a nobreza européia com obras do pintor. O rei da França foi agraciado com uma coleção de pinturas, que serviu para inspirar belas tapeçarias. Mas foi seu primo, Frederico III, rei da Dinamarca, o mais prestigiado. A ele, o conde doou 26 telas de Albert Eckhout, que hoje fazem parte do acervo do Museu Nacional da Dinamarca, em Copenhaguem, procedência das obras que compõem a mostra em exibição.

Ponto de confusão histórica, seja na Holanda ou no Brasil, é a origem de Nassau. O conde nasceu em Dillenburg, numa família de nobres da Alemanha, que tinha estreita relação de parentesco com a Casa de Orange holandesa. Nassau lutou na Guerra dos Trinta Anos a serviço dos Países-Baixos e foi para o Brasil a bordo da holandesa Companhia das Indias Ocidentais. Mas aqui é que a história se complica. Para muitos dos súditos da rainha Beatrix, a biografia de Nassau nem é sequer conhecida. Aliás, ele chega a ser confundido com Mauricio de Orange-Nassau, o filho primogênito de Willem de Orange, pai da pátria holandesa. O irmão de Willem era avô do Mauricio de Nassau-Siegen, que nós brasileiros conhecemos. O Mauricio de Orange-Nassau ou Príncipe de Orange é a figura que os holandeses conhecem bem. Este príncipe era tio do pai do “nosso” Mauricio. Tanto intrincado de nomes e de parentesco coloca as duas figuras históricas num mesmo saco de príncipes. O único jeito de desfazer este enredo é apelar para o cognome de Nassau, cuja intensa afeição pelo Brasil acabou valendo-lhe na Europa o apelido de Maurits, de Braziliaan ou Mauricio, o Brasileiro.

Quanto ao Mauritshuis ou Casa de Mauricio, ela está entrelaçada à própria trajetória de vida de Nassau. Mauritshuis foi contruída em sete anos para ser a sua residência. Mas ele lá viveu pouco tempo. O lugar tampouco conseguiu abrigar todas as imensas obras de Eckhout, que ele trouxe do Brasil para decorá-la. Em 1820, o edifício que hoje abriga o Mauritshuis foi comprado pelo governo holandês e, dois anos depois, era aberto oficialmente como museu, papel que cumpre até hoje, contando inclusive com o apoio valioso e permanente de mãos amigas, a exemplo da Fundação de Amigos da Casa do Mauricio.

Visita guiada e café brasileiro

A brasileira Disa Jansen, guia voluntária do Mauritshuis, descreve o museu como um ponto obrigatório de visita na Holanda. “O museu é pequeno, e por isso mesmo, dispõe de uma atmosfera familiar, muito rara de ser vista no mundo”, comenta. Para ela, é fonte de conhecimento guiar visitas de grupos internacionais durante as exposições periódicas ou mesmo para mostrar a coleção permanente. A sua atividade representa ainda a chance de aprender cada vez mais sobre a casa que liga o Brasil e a Holanda .“Trabalhar neste museu é um prazer porque eu não me distancio da minha própria cultura. A exposição do Eckhout deu-me a chance de conhecer mais sobre o nosso século 17; o assunto transformou-se para mim numa paixão”. Sobre a mostra, acrescenta ela: “A coleção inteira do Eckhout – pintura, desenhos e tapeçarias - tem um valor informativo e representativo sem igual sobre a época e a passagem do Maurício de Nassau pelo Brasil ”.

Disa apresenta-me ainda ao “Café The Brazilian”, um salão no museu que ganhou tal função e denominação com a realização da exposição sobre Eckhout. O pequeno e aconchegante espaço dispõe de mesas e cadeiras, de uma máquina de café automática e oferece publicações culturais para leitura rápida. O ambiente é destinado aos visitantes que ali passam diariamente. A exposição de Eckhout está na sua reta final, mas por decisão da diretoria do museu, o Café The Brazilian lá permanecerá. O Café brasileiro fica como homenagem a Johan Maurits, o Maurício Brasileiro. Tal generosidade acaba sobrando (que sorte!) para nós, comuns brasileiros, também.  

*Graduada em Comunicação Social pela Universidade Federal do Ceará, Itala Holanda atuou profissionalmente nos jornais Diário do Nordeste e O POVO, em Fortaleza. Paralelamente exerceu as atividades de assessoria de imprensa e produção cultural junto à instituições oficiais e empresas privadas. Escreve atualmente para driblar a monotonia.  

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