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COLUNAS
Daniel dos Santos - tem 36 anos, nascido em Santos, SP, foi professor de inglês e guia de turismo em Salvador, BA por dez anos. Faz estudo de Bacharelado em Comunicação em Inglês. Mora atualmente em Almere, Flevoland.
 
Etiqueta
 
Data: 14/08/2011
 

 

Em 1996 eu me diverti muito lendo um livro chamado Na Sala com Danuza, escrito por Danuza Leão. O livro abrangia de forma bem-humorada e irônica vários segmentos da etiqueta moderna. Eu o li porque tinha pouco mais de 20 anos na época, lecionava inglês para pessoas de certos níveis sociais e precisava saber como me comportar em público, o que dizer e o que não dizer.  

Aprendi mais sobre etiqueta com uma pessoa com quem tive um relacionamento amoroso. Ele era mais de duas décadas mais  velho e por ter sido vendedor em joalheria por muitos anos ele aprendeu algumas regras básicas. Ter um pessoa com experiência me explicando como eu deveria me comportar foi uma mão na roda. Claro que algumas regras eu já conhecia e me pareciam óbvias, como não falar com a boca cheia, etc; outras eu nunca consegui entender qual a finalidade, como não colocar os cotovelos em cima da mesa durante a refeição.  Reunindo o que eu já sabia desde criança com o que eu aprendi e li mais tarde, eu achava que tinha um apanhado suficiente delas para saber comportar-me a qualquer hora em qualquer lugar do mundo. 

Até vir morar na Holanda. Mudar hábitos impregnados é uma tarefa mais fácil de falar do que aplicar.  A fim de escrever este post, pesquisei por listas de etiquetas holandesas na internet mas não consegui encontrar nenhuma. Abaixo há algumas poucas com as quais eu me deparei pessoalmente. Caso tenha experimentado outras. Compartilhe conosco nos comentários. 

Apresentações

Uma coisas que mais me chamou a atenção assim que cheguei foi que, sempre que eu era apresentado à uma pessoa, eu recebia três beijinhos na bochecha: esquerda, direita, esquerda. Na maioria dos países do mundo, como o Brasil, são dois. Afastar a bochecha antes do terceiro beijos pode ser um tanto embaraçoso para a pessoa que o estava esperando.  Caso tenha optado por estender a mão, eu costumo sentir a falta de ouvir algo equivalente à “muito prazer” ou “nice to meet you”. É possível dizer “prettig om kennis met jou te maken” ou o mais formal “aangenaam”.  Na prática nada é dito;  apenas os primeiros nomes. Na verdade, a tentativa de se dizer aangenaam é frustrada e soa mais como uma atitude “metida” (bekakt, escrevo mais a respeito mais adiante) do que educada. 

Ser bekakt ou não ser: eis a questão

No Brasil, falar corretamente é algo extremamente apreciado e um divisor de águas entre a classe média e o chamado “povão”. Este não parece ser o contexto na Holanda. Mesmo holandeses pós-graduados falam com considerável simplicidade e cometem erros óbvios na língua, como o péssimo costume dos holandeses de trocar ze por hun para eles

Eles falam inglês.

Correto: Ze spreken Engels.

Errado: Hun spreken Engels

Existe esta tendência mesmo entre políticos, que insistem em fazer uso de um linguajar pouco inteligente chamado jip-en-janneke, achando que assim tocarão o coração de todos os eleitores mas isto tem sido apenas fonte de irritação para muitos ultimamente.  O problema é que as palavras usadas no dia-a-dia sequer estão nos dicionários, de forma que se uma pessoa não for boa ouvinte, se deparará apenas com palavras que soam bekakt aos ouvidos dos holandeses, palavras estas que se fazem necessárias na hora de se escrever, por exemplo, uma carta comercial ou uma carta à gemeente. Ou seja, saber exatamente qual vocabulário se usar em cada ocasião é um exercício para toda a vida para quem estuda holandês como segunda língua. 


Chauvinismo

Os holandeses vêem no orgulho exarcebado sobre o país de origem uma péssima qualidade.  Uma pessoa elogiar-se demais ou destacar demais as suas qualidades intelectuais, seus estudos, a pós-graduação, etc não soa modesto ou amigável. Mas falar demoradamente sobre o seu carro novo, a sua nova casa, a sua carreira e qual o seu último destino turístico não é somente permitido, é o ponto central das conversas durante encontros com amigos. 

 

Uma vez ouvi falar de uma brasileira que saiu gritando “Brasil, Brasil” em frente de sua casa, numa cidade pequena da Holanda,  quando,  na Copa de 2006 o Brasil marcou um gol contra os holandeses. Ela tinha um salão de cabeleireiro na cidade e perdeu todos os seus clientes do dia para a noite.  As únicas exceções para demonstração  pública de orgulho no país são o Dia da Rainha e o dia em há uma partida decisiva num mundial.  Em todos os outros dias é estranho comportar-se de forma exageradamente patriota ou usar a camisa cor-de-laranja representativa do país. 

Anfitriões e visitantes

Caso tenha sido convidado para uma refeição em casa de amigos, é grosseiro chegar de mãos vazias. Flores são sempre muito bem-vindas, mas uma garrafa de vinho de sua preferência tem sempre uma finalidade mais prática. A menos que já esteja próximo do horário da refeição, a bebida a ser aceita deverá ser café, chá, refrigerante ou suco (fris). Junto com café ou chá, haverá sempre uma latinha de biscoitos, que é servida pelos próprios anfitriões.  Servir-se não é considerado educado.

Pouco antes da refeição, pode-se escolher um tipo de vinho ou cerveja que servirá como aperitivo. Um bom anfitrião terá todos os tipos de vinho na geladeira (exceto o tinto, pois acredita-se que ele perde as suas propriedades quando gelado) e também os diferentes tipos de taças para diferentes  tipos de vinho. É bom lembrar-se que no caso de vinho tinto, a taça é, assim como no Brasil, enchida um pouco menos que a metade (dizem que o vinho tinto precisa “respirar”) ao passo que as taças de vinho branco podem passar um pouco da metade. Não toca-se na própria taça antes de certificar-se de que todos foram devidamente servidos e fizeram um brinde. O vinho precisa ser “degustado” devagar. Faz-se menos cerimônia com cerveja. Mas tanto no caso da cerveja, quanto do vinho, o visitante nunca pode-se dirigir à geladeira e servir-se, nenhum grau de intimidade permite isto na Holanda. 

Não espere grandes coisas das refeições. Nem todo mundo possui requintados dotes culinários. Os holandeses perguntam com muita espontaneidade se a comida está boa (“smaakt het?”) e caso nunca tenha mentido na vida, esta é uma hora propícia para começar. Caso a refeição tenha sido realmente ruim, não é preciso terminá-la, basta dizer que já está satisfeito. 

Espera-se que os visitantes despeçam-se antes das 22:00 mas sempre tem um ou outro que tomou um gole a mais e perdeu a noção do tempo. Não é educado dar a entender que a pessoa deva ir embora. Não é comum oferecer estadia à mesma, mesmo que esta pessoa tenha de dirigir 200 km ainda para voltar para casa. Se necessário for, o anfitrião deve ficar conversando com o visitante até a hora em que ele se decida por si só que já é hora de ir.  

Reveillon

Para os holandeses, comemorar é unir-se, sentar-se, conversar. Isto também vale para o reveillon (oud en nieuw) desde que seja comemorado em ambiente fechado. E assim o é já que a virada do ano costuma ter temperatura beirando o zero. Outro detalhe é a cor branca para roupas: no Brasil o branco é praticamente obrigatório, quer por se crer que traz sorte, quer por ter de combinar com os demais, mas na Holanda esta regra não existe. Já que a maioria das pessoas neste país não crêem em sorte (mas em trabalho árduo), a regra do branco não se aplica aqui e caso tente quebrar esta regra, vai sentir-se um peixe fora d’água. 

Outras ocasiões

Demais ocasiões seria (ainda se falando de aniversários) dar os parabéns (diz-se: gefeliciteerd!) a todos os presentes na casa (mesmo os outros convidados) e não apenas ao/à aniversariante (feestvarken). 

Durante serviços funerários (uitvaart) não é comum vestir preto mas tons leves, vê-se porém pessoas com roupas ‘alegres’ e coloridas mas destoa da ocasião e não é realmente respeitoso. Os aniversários holandeses, porém, parecem até mais tristes que os funerais. Há um discurso para os familiares da pessoa falecida proferirem algumas palavras que relembre coisas que a pessoa fazia em vida e um pouco de sua personalidade, o que acaba ganhando um tom discontraído, como por exemplo, que a pessoa era distraída ou desastrada. Após isto são tocadas as músicas favoritas da pessoa falecida. Após algo que dura mais ou menos uma hora, os convidados são dirigidos para um outro aposento onde lanches e bebidas são servidos. 

Cartões

Belíssimo costume: em praticamente todas as ocasiões especiais, os holandeses enviam cartões: Natal e Ano Novo, aniversário, de férias em outro país, motivos de doenças, mudança, diploma, habilitação, etc. Existem até lojas especializadas neste segmento. Todos ganham cartões, até os vizinhos imediatos. Neste caso, claro, não é preciso selar o envelope, nem fechá-lo; basta jogá-lo pela abertura de cartas. Trata-se de um grande momento na vida social dos holandeses e alguns gostam de expô-los em painéis em sua sala de estar durante todo o período envolvido. O preço disto, no entanto, é enviar um outro em troca. Caso nunca envie cartões, deixará também de recebê-los em breve. Um holandês pode ficar muito chateado com isto e pode significar ser permanentemente cortado da vida social do remetente.  

 

 

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Comentários



Nina, aquela mesma! - 02/03/2012
AMEI!!!!!!!!!!!!!!!!!! Certamente que lerei uma segunda, terceira, quarta,...décima vez! ehehehe

Bibi - 22/01/2012
Adorei!!!!

Edgar - 22/12/2011
ixi... agora descobri porque meu amigo holandes nao fala mais comigo, eu esqueci de mandar um cartao pra ele aqui de sao Paulo haahhaha.

Daniel - 21/08/2011
Oi Sulanita Silva, Obrigado pelo feedback. O que você mencionou sobre não se dar beijos em absoluto, definitivamente não me soa como a Holanda que eu conheço. Mas há divergências grandes entre sul e norte, creio eu. Eliana, saudades de você, sorte sua que não vive em casa de holandeses, pois não tem de correr atrás de regrinhas de como é que se deve ou não deve aqui. Obrigado demais às demais visitas, comentários e carinho.

Sulanita Silva - 20/08/2011
Olá, Nos meus oito anos e Holanda eu percebi duas coisas diferentes das escritas acima, talvez por morar aqui no sul, não sei. Uma delas: na apresentação de alguém os holandeses costumam apertar a mão e dizer o nome completo. Nada mais. E em ocasiões de aniversário apertar a mão do aniversariante e dizer : \"gefeliciteerd\" ou \"proficiaat\". Nada de beijinhos ou de abraços e nem de qualquer mensagem extra como fazemos no Brasil, nada e tudo de bom bla bla bla... Sulanita

Eliana Silva Gomes - 16/08/2011
Olha, realmente eu fui a um funeral aqui é foi muito mais legal que aniversários! rs Eu não frequento casas só de holandeses, então não posso falar muito. A casa dos sogros já é a minha segunda casa, claro, sem ser espaçosa...Esta de cumprimentar todo mundo falando "gefeliciteerd", sempre esqueço. Cartões sempre recebemos, mas é difícil retribuir, quando lembramos, já foi a data, a ocasião já passou. Bem escrito, Daniel!

Fabrício Matos - 15/08/2011
Acho que esse texto deveria ser obrigatório no exame de integração.

Marcos Godinho - 14/08/2011
Texto bem escrito e interessante. Adorei saber da mania de enviar cartões, achei muito legal.

Dayanny - 14/08/2011
Que texto chique
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