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COLUNAS
Adriana Mattos - é carioca e faz doutorado na área de ciências médicas e farmacêuticas na RUG, em Groningen, onde mora há 5 anos. Casada com holandês e mãe de 3 filhos, passou a se interessar por estudos de bilinguismo para poder entender e acompanhar o desenvolvimento da linguagem de seus dois filhos menores, nascidos na Holanda. Os meninos, atualmente com 4 e 2 anos, são criados com 3 idiomas simultaneamente (português, holandês e inglês) e estão se tornado trilíngues sem grande dificuldade, para o deleite da mamãe e do papai.
 
A vantagem bilíngue
 
Data: 30/08/2011
 

Há cerca de duas semanas eu estava na estação de trem de Groningen pronta para enfrentar um trem até Zwolle para levar uns documentos de departamento de imigração. Sempre que estou na estação, gosto de ir numa livraria que tem lá para ver encontro alguma revista interessante. Dessa vez comprei uma “Scientifc American Mind” e, para minha surpresa, tinha um artigo bastante interessante sobre bilinguismo infantil. Vários pontos no artigo eu já discuti em textos anteriores, mas algumas novidades me animaram e resolvi dividir com vocês. 

Como já sabemos, a  maioria da população do mundo cresce em  ambiente bi ou multilíngue e, portanto, o bilinguismo é a regra e não exceção. Em países monolíngues, como por exemplo nos Estados Unidos e no Brasil, as pessoas costumam acreditar que a exposição de crianças muito pequenas a mais de um idioma por vez pode levar a atrasos de desenvolvimento de fala e até mesmo a não aprender  “direito” o idioma majoritário. Na verdade isso não passa de preconceito e falta de informação mais atualizada.

Até  meados do século XIX, nos Estado Unidos, o bilinguismo era comum, mas daí os sentimentos negativos com relação aos imigrantes começaram a aflorar e os psicólogos da época começaram a proclamar que a exposição de crianças a mais de um idioma levava à inferioridade intelectual, ou seja, à burrice como se diz em bom português.  Esse conceito começou a ser modificado na década de 60, mas ainda existia a idéia geral de que  a criança precisava escolher um idioma “dominante”, já que o cérebro humano estaria preparado para aceitar uma única lingua.  De acordo com essa hipótese, a mente da criança bilíngue estaria em constante estado de guerra sobre qual idioma usar, o que levaria a atrasos de desenvolvimento e confuses mentais. Tem  gente que ainda pensa assim, não é verdade?  Eu escuto pérolas desse tipo vez por outra e, quando estou no Brasil, ouço diariamente…um saco!

Mas as pesquisas científicas mais atuais apontam para exatamente o oposto disso!

Um marco importante no estudo do bilinguismo foi um estudo feito em 2001, onde mostrou-se que crianças expostas a mais de um idioma antes dos 10 anos de idade atingiram todas as fases de desenvolvimento linguistico (como aprenderem as primeiras palavras e serem alfabetizadas) na mesma época que as crianças criadas em ambientes monolíngues. E não apresentaram NENHUM sinal de “contaminação” verbal (quando o idioma não é falado corretamente, supostamente por causa de outro idioma) ou de confusão mental. Estudos que se segiram a esse, confirmaram que não só a criança não fica “confusa”, como também já sabe diferenciar os dois idiomas desde muito cedo, ainda bebê. O interessante é que isso já é observado na maioria do mundo, que é bi ou multilígue e as crianças são perfeitamente normais, mas dessa vez foi num ambiente científico controlado.

No ano de 2008,  um estudo comprovou que crianças americanas que frequentavam escolas bilíngues (espanhol-inglês), obtinham melhores resultados em testes de leitura da língual inglesa do que aquelas que frequantavam escolas com programas excusivamente em inglês. De lá pra cá, seguiram-se outros estudos que enfatizam que o bilinguismo, além de não atrapalhar no desenvolvimento escolar do idioma majoritário, ainda ajuda!

Em um estudo europeu muito interessante de 2009, pesquisadores descobriram que bebês de cerca de 7 meses de idade  criados em bilinguismo desde o nascimento, se adaptam muito mais rápido à mudanças de regras que seus pares monolíngues. Em seguida, foi publicado um estudo mostrando que crianças bilíngues, em idade que já podiam falar, obtinham resultados melhores relacionados às suas capacidades cognitivas que o grupo monolíngue.

Em 2010, uma pesquisa confirmou  que crianças entre  4 a 5 anos de idade mostram maior criatividade e melhor capacidade de pensamento abstrato em relação a seus pares monolíngues. Outras pesquisas indicam que crianças de 7 anos de idade já apresentam, claramente, uma memória melhor quando criadas em bilinguismo. Eu que o diga! Aqui em casa eles têm uma memória maior que a de elefante! 

Em 2010, Ellen Byalistock demonstrou que ser bilíngue protege contra demência. Pacientes que sofrem de mal de Alzheimer foram separados em 2 grupos: monolíngues e bilíngues. Os pacientes bilíngues, mesmo os que apresentaram maiores danos cerebrais que os monolíngues, apresentavam menos sintomas de demência, o que leva-nos a pensar que as mudanças  cerebrais causadas pelo bilinguismo são suficientes para compensar os danos que essa  doença provoca.

E as vantagens do bilinguismo parecem não se limitar apenas à infância; os benefícios se extendem à vida adulta até idade bem avançada.

Mas e aprender mais que 2 idiomas? Será que os benefícios são também proporcionais ao número de línguas que uma pessoa é capaz de “maestrar”?

Em 2011, uma pesquisa conduzida em Luxemburgo com 230 homens e mulheres idosos  mostrou que  cerca de 75% das pessoas que falam  de 3 a  7 idiomas estão em melhores condições mentais do que os que falam apenas 2 idiomas. Isso demosntra que quanto maior o número de idiomas aprendidos, mairores  são os beneficios cerebrais mesmo a longo prazo. É como se aprender idiomas desde a infância formasse um campo-de-força protetor das abilidades cognitivas do cérebro!

Mas uma das coisas que tem intrigado os pesquisadores é como o cérebro do “bilíngue de berço” favorece diversos aspectos  e não somente o da linguagem (benefícios não-verbais).  A  flexibilidade mental, o pensamento abstrato e a memória de trabalho (um tipo de memória de curto prazo que é essencial para aprendizado e capacidade de resolver problemas) são exemplos dessas vantagens. O esperado seria que o exercício mental para falar mais de um idioma levasse ao desenvolvimento da área específica para a linguagem no cérebro. É mais ou menos como você estar na musculação exercitando os braços e no fim você também fortifica as pernas, perde a barriga e torneia todo o seu corpo!

Todas essas diferenças cognitivas, verbais e não-verbais, nos indicam que o aprendizado precoce de um outro idioma modifica a estrutura do cérebro em desenvolvimento em diversas áreas anatômicas. Não é interessante? É mais ou menos como uma aeróbica cerebral!

Uma nova técnica de neuroimagem que não é invasiva  e está sendo usada para comparer cérebros de crianças bilíngues x monolíngues revelou que as áreas cerebrais de linguagem se desenvolvem de modo igual tanto nos monolíngues quanto nos bilíngues, mas nos bilíngues outras regiões cerebrais são mais ativas que nos monolíngues, , como por exemplo  o cortex frontal inferior, que é responsável tanto por linguagem quanto por habiliade de pensamento.

Esses achados são IMPORTANTÍSSIMOS e se encaixam perfeitamente na idéia amplamente aceita de que aprendizado e educação diminuem o declínio das atividades através do aumento da capacidade geral de pensamento do cérebro (exercício cerebral, “quanto mais se estuda mais capacidade de aprender se tem”).

Esses estudos atuais também ajudam a desvendar  o velho mistério do que veio antes, se o ovo ou a galinha (biologicamente falando não tem mistério: foi o ovo, quem quiser saber explico melhor, pode perguntar), podemos fazer a seguinte suposição:  já que as capacidades cognitivas de uma pessoa também vão influenciar a sua habilidade de aprender outro(s) idioma(s), será que os bilíngues já não tinham essas vantagens cognitivas independentes e anteriores ao  bilinguismo? Ou seja, você é mais inteligente e por isso se torna bilíngue ou você é bilíngue e por isso se torna mais inteligente?

Bem, parece que o mistério está prestes a ser desvendado, assim como o biologic (ovo-galinha) já o foi. Fortes indícios apontam que crescer bilingue por si só pode causar mudanças cerebrais benéficas, como por exemplo o aumento da densidade de neurônios em certas áreas importantes par o funcionamento cognitivo. Ou seja: ser bilíngue torna pessoas mais “espertas” em certos aspectos.

Já é fato consumado, pelo menos nos meios científicos, que a melhor maneira de se tornar proficiente em mais de um idioma é a exposição sistemática e diária desse outro idioma e desde idade precoce, preferencialmente desde o nascimento.

Crianças crescendo em ambientes multilíngues, como em família de pais de nacionalidades diferentes,  podem usufruir dessas vantagens  naturalmente quando os pais falam rotineira e exclusivamente em seu idioma materno com os pequenos. Para crianças oriundas de ambientes monolíngues,ainda há opções, mas elas devem ser instruídas de maneira mais intensive e sistemática e uma solução pode ser uma escola de imersão, que leciona algumas disciplinas em um idioma não-majoritário. Aqui em casa aproveitamos essas duas opções: falamos português e holandês em casa (sem nunca usar o idioma ërrado”com cada pessoa) e os meninos também frequentam escola que é em inglês.

Algumas crianças tornam-se fluentes e outras nem tanto (iiso varia de acordo com vários fatores ambientais, como por exemplo se os pais são consistentes em falar apenas o idioma materno e não “misturar”as conversas com o idioma local), mas os beneficios são  mais do que claros e os pesquisadores acreditam que toda criança deveria ter a chance de se tornar bilíngue. Eu concordo plenamente com isso e por isso dou essa chance a meus meninos. E estamos indo bem :-) 

E você, também dá chance de seus filhos aproveitarem ao máximo o bi ou multilinguismo? 

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Comentários



Isabel - 23/04/2012
Cara Adriana, Adorei suas colunas sobre o bilinguismo. sou mae de um lindo bebe de 9 anos e enfrento as duvidas e belezas do bilinguismo.

flavia luciene - 22/01/2012
ola adriana. sou brasileira, mineira, estou em amsterdam, por hora, cuidando de criancas. Tenho estudado o idioma, mas como 'e dificil!!. Agora, que ja estou aqui ha quase 1 ano, penso na possibilidade de levar meu estudo a diante., sou enfermeira. o que vc me diz? como procurar mestrado, pos, aqui, fora do meu pais? obrigada por seus textos.

André Luiz da Silva - 11/09/2011
Caríssima Adriana, Parabéns pelo seu artigo tão informativo e tb inspirador! Abraços, André

Rosangela - 30/08/2011
Muito pertinente seu artigo, Adriana. Aqui em casa eu falo somente em português com a minha pequena de quase 3 anos e o pai em holandês. Entre meu marido e eu, falamos em inglês. Ela fala tanto holandês como português e compreende inglês. Ainda mistura um pouco as palavras, mas está indo muito bem, no meu ponto de vista. Obrigada pelo ótimo artigo. Veio na hora certa. Meus sogros, os que mais pegam no meu pé por falar somente em portugues com ela, estão por chegar e já terei novos argumentos.

Viagem - 30/08/2011
Acho esse tema do bilinguismo bastante intressante pois eu também cresci em um lar bilingue. Acho o maior preconceito que as pessoas pensem que isso pode atrapalhar na aprendizagem do idioma do país...felizmente nem todos pensam assim! Gostei bastante do seu artigo!

Simone Westerduin - 29/08/2011
Bem interessante Adriana! Eu sempre imaginei que só existe benficios para crianças que crescem em ambientes biligues, já presenciei casos interessantimos, filhos de uma conhecida que aos 10 anos já falavam 4 idiomas: o idioma dos pais e dos países onde moraram. Mas também ouvi algo que deu pena semana passada, uma colega holandesa do trabalho dizendo que acha um absurdo desenhos pra crianças na TV holandesa em inglês. Ela acha que o filho de 2 anos é muito novo pra ser exposto a um novo idioma, ela sente que ele fica confuso. Aff. beijos
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