Há muito venho escrevendo sobre a educação no Brasil. Há muito venho escrevendo que o cerne da questão educacional está na formação dos professores que são mal preparados pelos centros formadores. Há muito venho escrevendo que o efeito cascata disso tem levado à lata de lixo várias gerações de brasileiros. A educação no Brasil desfia-se na incompetência dos governos e na incapacidade política de resolver a questão. O problema, claramente perceptível, não está só no fato da incompetência e da incapacidade. Vai mais além, é parte da falta de preparo cultural e de conhecimento da maioria da nossa classe política. Como hoje estamos com fundamentos sociais baseados na corrupção, no ganho fácil, Ferrari, BMW, Gulfstream, Iate etc. preocupação em ter formação educacional de nível se tornou algo supérfluo, sem sentido, sem razão de ser. Inteligente é saber faturar com desvio, para não dizer furto, do dinheiro público.
As últimas declarações do Ministro da Educação são de dar pena. Após oito anos, descobriu que é necessário aumentar o número de horas das aulas ministradas. Pior, acredita que isso resolverá os problemas do aprendizado dos estudantes brasileiros. Em oito anos não deu para ele perceber que há um péssimo preparo dos educadores na sua formação. Não entendeu que o currículo escolar está defasado e improdutivo ante a realidade social do mundo hoje. Não percebeu que os livros oferecidos nas séries preparatórias de base são de baixa qualidade e pouco estimulantes ao exercício da mente, do raciocínio. Ele deixou de observar que o sistema semestral de ensino não é mais cabível diante do novo comportamento dos adolescentes na sua relação com o mundo.
Como não bastasse, começa a se mirar em formas asiáticas para servir de espelho a novos caminhos para a nossa educação. É um posicionamento errado se tiver como base, adotar o sistema coreano, por exemplo. Temos que adotar a filosofia, os princípios que nortearam o avanço da educação naqueles países. É o que faz a China hoje. A forma de aplicá-los exige respeito à condição peculiar de cada sociedade, a integração da educação familiar com a cultural e profissional. Aumentar em dez dias o calendário escolar não levará a nada se os fundamentos e equipamentos do sistema educacional não forem melhorados, mais aprimorados. Acreditar que dez dias a mais de aulas irá crescer em 44% o aprendizado de nossos alunos é grande piada de mau gosto. Pode até ser, se considerarmos que estamos a 0%, obter 0,44% é uma vitória, um achado. Aliás, Ricardo Paes de Barros é um mestre nessas tiradas de apoio político ao seu guru, o ministro Haddad.
Está em andamento no Congresso Nacional o projeto do senador Cristovão Buarque que pretende retirar o ensino universitário da esfera do Ministério da Educação. O ensino superior passaria a ter gestão do Ministério da Ciência e Tecnologia. Não deixa de ser uma mexida no tacho e que pode dar novo rumo ao ensino nas universidades, é uma possibilidade. Isto se não acontecer de ser um novo canal ou trampolim para candidatura política, é ver pra crer.
Defendo, desde os anos 80, que o Ministério da Educação deveria ser desvinculado da estrutura organizacional do Executivo, assim como é o Congresso Nacional e o Judiciário. Teria vida própria e seus membros diretivos compondo uma estrutura colegiada indicada eletivamente pelos representantes das instituições educacionais do Brasil de forma vitalícia, de reconhecido conhecimento e vivência na área educacional e de ilibada moral. Defendo também desde os anos 80 que o sistema de ensino tem que ser na forma trimestral contínuo. Este sistema é a melhor forma de imprimir produtividade no aprendizado, melhorar a capacidade de aplicação do ensino por parte dos professores, recuperar a tempo os alunos com dificuldades, executar mudanças eficazes no planejamento com rápidas respostas nos resultados, trazer maior integração aluno x escola evitando problemas de relacionamento e evasão escolar e por aí vai.
Muitas vezes, nos anos 80, tentei em minha instituição educacional implantar tal sistema projetado por mim, mas não assimilado pela maioria dos pais motivados pelos períodos de férias que seriam alterados. Que fazer? É o rol dos que aceitam passivamente, talvez até em razão do desconhecimento, e são os filhos que, com isso, pagam com o esgarçar da nossa educação.