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COLUNAS
Raphael Curvo - jornalista, advogado e comunicador
 
Visão tortuosa
 
Data: 09/10/2011
 

Em sua viagem ao exterior a presidente do Brasil prega a exuberância da nossa economia. Não há como negar, segundo o governo, que estamos melhores que muitos por esse mundo afora. É preciso tomar cuidado nesta afirmativa vez que o Brasil se tornou um país midiático, construído pela mídia e pela propaganda e índices de pesquisas bem duvidosos. A fragilidade desta nossa sustentação econômica é visível e, não querendo ser pessimista, temos que tomar medidas factíveis para que a nossa dependência de exportações de matérias primas com restrito mercado comprador não nos apresentem surpresas que a economia mundial costuma pregar.

O Brasil tem hoje na exportação de commodities e semi faturados, cerca de 68% de sua receita. A China é a maior produtora dessa receita. Confiando no desenvolvimento chinês, o governo brasileiro vem desleixando da força produtiva nacional e com isso as nossas indústrias estão perdendo mercado interno para os importados que, de maneira avassaladora, está ocupando espaços pela falta de competitividade da força produtiva das nossas empresas em razão da alta carga tributária e de falta de qualificação de mão de obra. Há uma clara incompetência da administração pública em coordenar uma política industrial com eficiência.

A equipe da diplomacia econômica não consegue estabelecer critérios nas relações comerciais com outros países. A Argentina faz o que quer com as nossas indústrias e o nosso comércio sem sofrer qualquer resposta a altura em uma relação comercial. O que está sendo feito é mais para satisfação pública. No caso dos argentinos, extensivos ao Uruguai, Paraguai e Bolívia, ainda há o problema de servirem como parasitas para a exportação chinesa para o Brasil. É o caminho para que estes produtos chineses se beneficiem com menores impostos em razão das condições tarifárias Brasil-Argentina e com isso entrem no mercado brasileiro com preços muito abaixo dos similares nacionais que recolhem altos tributos no seu processo de fabricação.

Um dos resultados disso é que o Brasil está gerando empregos para esses países. Enquanto isso desprezamos os maiores mercados consumidores mundiais como Estados Unidos e a Europa que podem fortalecer a nossa indústria de manufaturas. Ao não participar de forma mais intensa nesses mercados, o Brasil está abrindo espaços enormes para os produtos asiáticos, especialmente para os chineses. Exportamos para a China cerca de 1,5 bilhões de dólares em produtos manufaturados neste ano. Para Europa e Estados Unidos esses números atingem cerca de 20 bilhões de dólares (Estadão/Rolf Kuntz). Aliás, Kuntz expressa com clareza o papel colonial que o Brasil vem desempenhando na economia mundial, voltamos à era do colonialismo em que enviávamos à coroa portuguesa os produtos básicos e comprávamos os manufaturados a preços exorbitantes.

Esta depreciação política da indústria nacional, pela nossa política de desenvolvimento, reduz o campo de crescimento e de inovação na área tecnológica. O País não consegue impulsionar este campo e por conseqüência, puxa para baixo as possibilidades de evolução deste segmento de tecnologia nas universidades brasileiras. Proteger o mercado com uma forçosa participação de componentes nacionais em automóveis, por exemplo, não vai resultar em avanços no mercado industrial brasileiro e muito menos ainda na evolução de conhecimentos tecnológicos. Aliás, salvo engano, o único carro 100% nacional fabricado até hoje no país foi o Gurgel. O resultado foi a falência. Somos meros montadores das tecnologias produzidas lá fora.

Na verdade o Brasil tem sua política pública, para todas as áreas, determinada pelo marketing das agências publicitárias. São dessas agências que partem as linhas mestras da política do governo. Elas são determinantes para a administração pública, pois orientam nas tomadas de decisões que irão gerar resultados no jogo político, conseqüentemente nos índices de pesquisas e estes nos resultados eleitorais. Há uma leitura econômica e social no mercado e nas relações sócio-políticas, mas que o governo, por uma lesão ideológica, não consegue compreender. 

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