Sábado dia 8 de Outubro passado o Tropentheater mostrou o documentário “Ninguém Sabe O Duro que Dei”, dirigido por Claudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal. O documentário relata a história do cantor Wilson Simonal. Relata sua ascensão como um dos melhores e mais amados cantores brasileiros das décadas de 60 e 70 e após a ascensão, a sua queda.
Misturado à história do cantor, do ídolo, o documentário mostra um pouco da história do país em ditadura, da censura, do medo e do preconceito racial no Brasil.
Simonal, um negro, filho de uma empregada doméstica, pobre, conseguiu se tornar um dos cantores mais populares da década de 60 e 70 no Brasil. Chegou a viajar com a seleção para o México e se tornar cantor “oficial” da seleção vencedora da copa. Isto devido ao seu talento como cantor e devido ao seu carisma no palco, ele conquistava o público. Exemplo do seu talento vê-se no seu dueto com a cantora Norte Americana Sarah Vaughan na música “The Shadow of your Smile”, em um especial gravado para a TV Tupi em 1970. Na época Sarah era considerada uma das melhores cantoras Norte Americanas. E no impressionante show no Maracanãzinho que Simonal abriu para Sérgio Mendes. Simonal “regeu” o público de mais de 30 mil pessoas que cantou com ele sucessos como “Meu limão meu limoeiro”. Simonal fez tanto sucesso que Sérgio Mendes quase não teve coragem de subir ao palco. O sucesso de Simonal causava ciúmes, ele tinha consciência do seu talento e tinha certa arrogância que era difícil de “engolir” vinda de um negro. Simonal andava de carro importado e namorava loira, como disse Miele.
Mas o que aconteceu na sua vida foi uma história quase surreal, o cantor foi acusado de ser agente informante do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), um dos órgãos da censura na Ditadura. Esta acusação aconteceu por causa de uma série de acontecimentos infelizes relacionados ao seu contador. O cantor não agiu de forma correta quando desconfiou que estivesse sendo roubado por seu contador. Ele piorou a situação ao contratar dois seguranças, um deles ligado ao DOPS para “resolverem” a questão. Resultado: o contador foi torturado pelos agentes e deu queixa a polícia. Com a ligação ao DOPS a história cresceu e se tornou um dos maiores mal entendidos da história, Simonal virou agente do DOPS. O filme traz depoimentos dos cartunistas Ziraldo e Jaguar, que eram do jornal O Pasquim, que ajudou a destruir Simonal.
Até aí tudo poderia ter sido resolvido se não fosse o difícil “clima” político do país. Ou você era de esquerda e “engajado” ou era considerado a favor da ditadura. Simonal não era nem uma coisa nem outra, era um cantor negro e pobre que conseguiu sucesso e dinheiro e que gostava de curtir a vida. E virou “bode expiatório” do Pasquim (semanário brasileiro reconhecido por seu papel de oposição ao regime militar brasileiro).
Foi o seu fim, condenado ao ostracismo. Ele passou a ser tratado como dedo-duro e delator dos colegas. A classe musical do Brasil passou a boicotá-lo e o Pasquim a metralhá-lo semanalmente nas suas charges. O que se seguiu foi um relato muito triste da sua queda, ninguém mais o convidava para shows, os colegas não queiram seus nomes associados a ele e nenhum colega da classe teve coragem de defendê-lo.
Depoimentos de Chico Anisio, Sergio Cabral, Nelson Mota e do próprio Ziraldo (cartunista do Pasquim) confirmavam que nenhum deles acreditava na culpa de Simonal. Fica a pergunta: como é possível que este caso tenha tomado tamanha proporção ao ponto de destruir a carreira e finalmente a saúde de Simonal? Teria sido preconceito, ciúmes, medo da opinião pública, ou somente descaso? Uma pergunta de difícil resposta.
Simonal faleceu de cirrose desencadeada por um problema de alcoolismo. Faleceu ainda humilhado e envergonhado e com seu nome “sujo”. Apesar de ter tentado provar a sua inocência mais tarde, quando já era possível mostrar documentos oficiais do DOPS em público que declaravam que ele nunca foi informante. Mas já era tarde demais, ele era um cantor esquecido e seu nome nunca voltaria a ser limpo. Faleceu com medo de ir assistir aos shows dos próprios filhos, temendo sujar os seus nomes ao serem ligados a ele.
Claudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leale os filhos de Simonal ao fazerem este documentário, tentam resgatar a imagem do pai como cantor, limpar sua “ficha”. Resgatar a sua história dentro da música brasileira e talvez mostrar a hipocrisia da classe intelectual e musical brasileira da época, assim como mostrar o que o radicalismo tanto de esquerda quanto de direita podem criar. Pelo menos, foi o que eu “li” na mensagem deste filme.
Emocionante e imperdível para quem quer saber mais sobre a história da música brasileira e sobre a sociedade brasileira nos tempos da ditadura.

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