
Outubro é um mês para morrer
Já morri na primavera e em outros outubros
Já morri até mesmo nua.
Na sombra, nas nuvens e em rostos rubros
Mas nunca morri na mesma rua.
Outubro com certeza é mês para morrer no hemisfério norte
Mas é preciso ter pressa, porque novembro exige vida e dezembro um saldo positivo.
Cheguei a Holanda pela primeira vez com 22 anos. E não foi num dia qualquer. Foi aos 22 de um outubro que marcaria minha vida. Mesmo encontrando as pessoas na ressaca do verão, achei tudo maravilhoso. Há quem diga que a chegada na primavera seja impressionante mas, para mim nada se compara as cores impactantes do outono. Foi um encontro perfeito e eu me apaixonei por ele. Meu ser leonino com ascendente em touro vibra com vermelho, terra, laranja! Tudo era novidade e alegria naquela época, ainda mais para quem veio de uma região do Brasil com 2 estações bem definidas - chuva e seca - aprendi que existem mesmo 4! E que elas interferem de verdade no nosso ritmo de vida.
Com o passar dos anos, aquele encantamento inicial foi se perdendo, mas aprendi a encarar o frio como o momento necessário para a introspecção. Os bichos dormem. Eu raciocino, logo devo pensar. É sempre o momento ideal para fechar para balanço e avaliar os planos e projetos. Não tem como não acreditar em renovação vendo as folhas caindo, por mais triste que possa parecer.
Outros outonosvieram. Alguns trouxeram um anúncio forte de um inverno melancólico e deprimente, outros nem tanto, e muitos guardaram a alegria do verão até a chegada da primavera. Mas a cada ano, me renovo nele e com ele.
Que venha novembro e seus dias curtos, p'ra que eu possa me perder na escuridão das noites longas, depois de soltar todas as bruxas...
“Esperança”
A chuva em gotas esvai-se
Qual pó que cai sobre a terra
E a beleza toda encerra
Do arco-íris que não erra
O tom da luz e desfaz-se
O vento em sopros esvai-se
Qual manso tato materno
Onde o acalanto é eterno
Contra tudo o que é moderno
Mantém o amor e refaz-se
O amado em prantos esvai-se
Qual verso que já fraqueja
Não mais suporta a peleja
Contra um peito que lateja
Na paixão, que é morte, e vai-se
A esperança não se esvai
Qual o amado, o vento, a chuva
Vence a derrota e madruga
Faz do seco pó, a uva
Levanta-se quando cai.
