Para sair da rotina, nada como receber visitas.
Quando a Olena me falou que gostaria que eu recebesse uma colega de trabalho aqui em casa, primeiro veio o instinto de “claro, minha irmã! Se é alguém de quem você gosta, seré um prazer recebê-la.” Mas passado o instinto, aparecem as preocupações de planejamento; de como receber bem e pensar em tudo que e necessário para isso e principalmente, como adaptar a dinâmica da casa para conciliar a rotina com o evento.
Aqui entram modificações na agenda, verificar o que tem, o que falta, colocar em dia a lavanderia, fazer uma faxina mais profunda na casa, planejar as refeições, e finalmente, planejar o roteiro. E daí, surge uma pergunta importante: Qual o tipo de turista que vou receber?
Mas passada a “revolução” a que a gente mesma se submete, vem mais um aprendizado: o de perceber que às vezes nem é necessário tanta mobilização, mas sim, tranquilidade. Desse modo as coisas fluem com tanta naturalidade que se torna bem mais fácil dar conta do recado. Até mesmo porque sempre haverá algo fora do planejado, afinal, é com pessoas que estamos lidando. E desta vez, o imprevisto foi uma boa surpresa.
Nesses últimos dias, tive o prazer de receber em minha casa, o melhor tipo de visitante: o curioso. Aquele que não se contenta somente em ir aos must-go e must-see places, mas que quer também conhecer como é o dia-a-dia das pessoas do lugar, o que me proporcionou além de uma redescoberta, novas expêriencias aqui, na capital da Holanda, Amsterdã, “a cidade dos sapatinhos de madeira”. Como descreveu Carrie Bradshaw, o personagem de Sarah Jessica Parker em Sex and the City. E essa é apenas uma das tantas descrições a que podemos recorrer quando falamos desta cidade. Mas nenhuma, entretanto, a define...
Não é nenhuma Paris. Não é uma cidade monumental. Não tem o status de Roma . Não é “a cidade que nunca dorme”. É na verdade, uma cidade simples, mas charmosa e surpreendente. Como eu costumo dizer “uma cidade grande com jeito de cidade pequena ou cidade pequena com jeito de cidade grande.”, pois tem tudo aquilo que uma cidade grande tem para oferecer. Tem simplicidade, como nas cidades do interior do meu Brasil, ou afunilando mais ainda na comparação, as cidadezinhas do meu Ceará. E mais ainda...temos transporte de qualidade, universidades, museus, restaurantes de várias cozinhas do mundo, organização, sem falar em saúde e educação, pois para isso seria preciso mais um texto!.. Tudo à mão, tudo perto.
Imaginem a qualidade de vida de um país onde boa parte dos trabalhadores vão ao trabalho de bicicleta. Imaginem um país onde as mães usam a bike para lever os filhos à escola. Isso é realmente um diferencial. É algo único. Um país onde as conexões de trem chegam no horário certo. Onde a leitura é incentivada desde à infância e faz parte do dia-a-dia das crianças. Onde o ensino básico é trabalhado vivenciando-se os temas escolhidos. Mas os holandeses não são esnobes. Eles são práticos, diretos e totalmente sem frescura. A vida para eles é muito simples e usufruir dela então, chega a ser feito de uma forma prosaica! O que pode ser para muitos um choque cultural, dada a invasão cultural norte-americana em nosso pais...
Aqui, existe o passeio no bosque, a leitura no banco em um dos tantos parques verdes que existem. E acho que eles tem razão: a vida é simples mesmo. Usufruir bem dela então é ainda mais fácil. E só descomplicar! Com minha hóspede, acabei redescobrindo Amsterdã.
Mas não é a primeira vez que isso acontece. E esse é o grande barato da história! É uma cidade que se reinventa. Ela é… assim, inusitada! De repente você resolve seguir um caminho diferente, e lá está uma ruazinha linda, uma vista maravilhosa, as janelas enfeitadas, uma ponte, um detalh, isso ou aquilo. Há sempre uma novidade. Tive até mesmo primeiras experiências depois de tanto tempo vivendo aqui. Minha turista não se cansava nunca! Ou melhor: mesmo cansada, queria ir, queria ver, queria experimentar e isso foi o mais legal de tudo!
Visitei o Madame Tusseaud, na praça principal, mas sempre o subestimei. Achei que ver bonecos de cera não me acrescentariam nada! E logo eu que adoro cinema, que dou o maior valor a uma boa história!... E que boa surpresa eu tive! Porque foi uma experiência que transcendeu a questão Hollywoodiana, do filme, dos artistas, porque é curioso estar em frente a uma réplica de alguém que você admira e sentir-se sendo visto, “espionado” pelos outros…
Andei de bicicleta-táxi! Estava me sentindo tão turista que até falei inglês em vez de holandês com o povo! Mas é isso mesmo, eu sou uma turista-nativa! Vou inventar o termo, vou fazer que nem Caetano: inventar palavras!
Estive na Biblioteca Central outra vez, mas não tinha reparado na vista que há do terraço. Lá, lembrei-me das milhões de coisas que tenho que estudar.
Estive no Hotel Pulitzer, onde ficam hospedados os músicos do Prinsengrachtconcert. Visitei novamente a casa de Anne Frank para lembrar que aquele holocausto de fato existiu e de “que é preciso lembrar do passado para construir o futuro”. Fiz o boat-tour à noite pela primeira vez. Voltei a experimentar o tal do vinho fervente com Amaretto, algo que experimentei uma vez de passagem pela Suíça. A vida é mesmo assim: uma “caixinha de surpresas” como dizia Forrest Gump. Não! A vida é aquele brinquedo, aquele cubo que a gente fica tentando colocar as cores no lado certo. E assim, ela vai se encaixando…
Como é bom reinventar o velho. Voltei a me apaixonar por Amsterdã e agradeço à minha visita por isso!
Infelizmente, não vi a amostra de cinema. Não deu tempo e estávamos em frangalhos! Mas sem problemas! Fica para o próximo ano.