“Me invade as memórias das tardes do sul,
Saudade de mares, cidades, praias e caminhos de sol
Silêncio, risos, poesia e piada
Nós dois juntos, na mesma estrada...”
...
"...O meu sorriso amarelo
Muito mais que um paralelo
Faz-me um paralelepípedo
Que a falta tua é tamanha
Que lembrar-te é minha campanha
E Saudade é teu epíteto."
E quis o destino, que une os povos num total desatino, que eu viesse morar justamente na terra das Berthas...
Bertha Doebely nasceu na Alsácia, curiosamente na cidade de Mulhausen (Moinho), para depois se casar, em 1872, com um judeu holandês, de Haia, que havia se convertido ao cristianismo. Passou a se chamar Bertha Doebely Vanorden. Mudaram-se para o Brasil, ele como missionário presbiteriano e ela como mãe dedicada de 6 filhos, tendo vivido em São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. O reverendo Vanorden, revolucionário e abolicionista que, segundo o historiador Themudo Lessa havia nascido para “varão de contendas,” rompeu várias vezes com a Igreja e teve o apoio de Horácio Lane (Horace Manley Lane), do Mackenzie. As duas famílias se uniriam ainda mais com o casamento dos filhos. Dessa união nasceram 3 meninos e outra Bertha, a Ellen Lane, que herdou o nome da avó. E eu herdei o nome dela.
Como minha avó foi uma das mulheres mais sensacionais que já tive a oportunidade de conhecer, naturalmente eu sempre me orgulhei muito dele (mesmo quando ela contava do Big Bertha), além de ser, no Brasil, um nome raro e admirado. Infelizmente, ela não viveu o suficiente para ouvir o que eu descobri aqui na Holanda. Justamente por ser um nome muito antigo, já não se usa mais. Ninguém dá um nome a uma criança recém-nascida de Bertha. Seria como um Gertrudes no Brasil. Aqui o interlocutor não se admira, muito pelo contrário. Ao me apresentar a um holandês, o espanto é notório, pois na Holanda, Bertha, Clara, são nomes que os fazendeiros colocam nas vacas. Há pouco tempo ouvi dizer que Paula também tem se tornado popular nos campos. Por esse motivo, passei a usar durante algum tempo um nome artístico - quando fiz parte de um grupo de dança - tamanha era a reação de espanto das pessoas ao me apresentar. Mas não durou muito, pois não me acostumei com a idéia. Nada mais brasileiro que um nome alemão, árabe, inglês e holandês, todos juntos e convivendo em harmonia.
Recentemente ouvi de uma moça que está vindo morar na Holanda, contar animada que sua filha se chamará Clara, que eu particularmente acho lindo! Mas a Clara - que vai nascer e crescer na Holanda - talvez não tenha tanto orgulho do nome dela quanto eu tenho. Sorte das Marias, que continuam sagradas e populares há tantos anos. E felizardos os que, sem medo do desconhecido, atravessam oceanos e perseguem os sonhos. Sem medo de errar.
MEIOS
Versos são meios; palavras
Vagas, porém, são encantos
Tantos que me vêm do nada
Cada tem rimas e cantos
Homens são meios; metades
Frades ou reis, meio tontos
Prontos, desde a tenra idade
A achar seu meio no encontro
Versos e homens padecem
Vagos e tontos carecem
De alegoria qualquer
Homens e versos procuram
Alento, quando se curam
Nos olhos de uma mulher.
