É uma história, mas com base na vida real. Será contada em alguns artigos. Envolve a área médica, entretanto, não é uma crítica ou uma ofensa a classe, porém retrata a irresponsabilidade de alguns desse setor profissional ao qual não é permitido o erro já que a vida subentende-se, é o bem mais precioso do ser humano. Também será mencionada a situação da contrapartida de honorários, salarial, hospitalar e operacional que é calamitosa. Os que podem e tem assegurado o bom atendimento não estão muito preocupados com aqueles que necessitam da resposta pública para o atendimento da saúde.
1º de outubro de um ano qualquer, Selena brincava alegremente nos jardins de sua casa que tinha como endereço um bairro de classe média em uma rica cidade do interior. Sua mãe, Celina, observava a alegria da filha no balanço do quintal cheio de árvores frutíferas e a sua felicidade era mais que notada por todos que faziam parte de sua roda de amizades e conhecidos. Já se passaram cinco anos e o resultado de muita dedicação e amor estava ali naquele balançar cheio de prazer. Celina estava sempre presente na vida da filha única e a sua preocupação se estendia em todos os campos do seu viver.
Os cuidados com a educação familiar, higiene, estudo e alimentação tinham na vida da menina uma importância fundamental. Cabia a Celina, e somente a ela, esta responsabilidade. O pai ausente já não fazia parte e há muito não dava notícias. Formou nova família e foi morar bem longe da filha que para ele foi um erro na vida e a presença desta gerava uma cobrança constante a sua consciência que o perturbava e o oprimia. Sentia-se algemado àquele fruto de uma inconsequência momentânea e de puro instinto. Afinal, Selena nasceu aos quinze anos de Celina. Longe, talvez as algemas pudessem se dissolver no tempo.
Religiosa, Celina levava todos os domingos à filha para assistir a missa. Isto incomodava um pouco a criança que já estava com seus sete anos, mas sentia-se à parte daquele evento religioso. A missa, nos moldes em que é ministrada em geral, nada dizia a pequena e linda menina de lindos olhos azuis e afilado rosto composto por cabelos negros como noite nos campos em que a lua não comparece. Aliás, este molde é uma das deficiências da Igreja Católica que não cria programação eucarística as crianças e menos ainda aos adolescentes. A fala e rituais não tem nada do linguajar dessas faixas etárias. Não ocorre uma identificação com o seu mundo e modo de vida. Ganha-se adeptos imprimindo medo do existir pós morte, a imortalidade que será no céu ou no inferno. Selena sempre se sentiu intrigada com o Cristo pregado na cruz.
Aos nove anos não entendia, apesar de muitas explicações da mãe, o que levava a Igreja Católica a apresentar Jesus sofrendo de tamanha violência. Aquela imagem era agressiva para ela ainda mais na fase em que começava a entender de que na vida é preciso muito amor e carinho com o próximo. Isto a levou pensar com seus botões, que a Igreja pregava a violência. A imagem era mais forte que as palavras de solidariedade, paz e amor lançadas no sermão pelo padre da paróquia. Mal sabia Selena que este é o foco da mensagem, do filho de Deus pregado na cruz, que o cristianismo se utiliza para arrebanhar fiéis.
Aos dez anos, entrando na adolescência, Selena começa a sofrer os primeiros sinais da transformação do corpo que aos poucos vai sofrendo. Celina, na tarefa de ser boa mãe, não mede preocupações com a saúde alimentar da filha e vê no volume do alimento consumido um sinal de resistência e imunidade a doenças e como suporte ao melhor desenvolvimento intelectual dentro do princípio de que criança bem alimentada é uma criança sadia. Desconhecedora da qualidade alimentar, tal dito pecava pela composição nutricional em sua maioria de péssimo teor.
Aos poucos, com o passar do tempo, Selena começa a sentir-se diferente das demais amigas. Percebe que ela tem um corpo com melhor formação escultural. Essa percepção a incomoda e se torna quase um problema ao ser preterida em alguns relacionamentos com as colegas. A consciência do fator estético imposto pela roda de amigos começa a exercer uma força psicológica no seu comportamento e ao mesmo tempo, trazer implicações emocionais em toda a sua atividade. (Continua na próxima semana)