Aos poucos, com o passar do tempo, Selena começa a sentir-se diferente das demais amigas. Percebe que elas tem um corpo com melhor formação escultural. Essa percepção a incomoda e se torna quase um problema ao ser preterida em alguns relacionamentos com os colegas. A consciência do fator estético imposto pela roda de amigos começa a exercer uma força psicológica no seu comportamento e ao mesmo tempo, trazer implicações emocionais em toda a sua atividade.
Celina, sem se dar conta dessas mudanças na vida da filha, defende que tal fato é passageiro, coisa da puberdade e mantém o ritmo alimentar da casa. Os problemas com o corpo com o passar do tempo começam a se multiplicar e a filha desenvolve certas defesas, sendo uma delas o isolamento. Aos treze anos o processo de se sentir discriminada a atinge com alto grau. Mesmo não sofrendo de parte das colegas e amigos tal comportamento discriminatório, Selena entendia que qualquer olhar observador ou dizer relativo a peso ou número de roupas tinha um endereço certo: ela. Para tal, se isolar era o melhor remédio. Aos poucos já não se comunicava com ninguém.
Aos quinze anos, pesando cerca de 90 kilos, Selena já não dava muita importância as brincadeiras de que toda gordinha é alvo. Descontraída, começa em novo ambiente escolar outra roda de amizades, mas sem deixar de lado a idéia de que logo conseguiria fazer um tratamento para a obesidade. Desde os quatorze anos esse pensamento foi se desenvolvendo em sua jovem mente e o sonho de uma nova vida corporal trouxe de volta a alegria de sua juventude e a fase do isolar começava a se desmoronar. Apenas a expectativa de voltar a ter um corpo dentro dos padrões normais retirou Selena do palco da tristeza e a conduziu ao brilho da felicidade.
Com apoio da mãe e da avó, começaram a planejar financeiramente o tratamento. Uma operação estava fora dos planos dado o custo médico particular para tal. Esperar por uma avaliação e internamento dentro do programa público de saúde contra a obesidade era algo demorado demais para sua ansiedade jovem de ver as coisas logo realizadas. O caminho mais rápido e factível seria um tratamento a base de medicamentos e dietas. Pelo menos serviria como resposta a sua vida emocional e social de adolescente. Traçada a estratégia do tratamento e a composição financeira e dos custos, começava a busca pelo profissional da saúde para realização do sonho e da volta à vida saudável.
Aos dezesseis anos, pesando 105 kilos, Selena e mãe fizeram muitas pesquisas e encontraram algumas informações sobre os médicos que realizavam tal tratamento que com o passar dos meses a trariam de volta a sua forma corporal escultural, como de suas amigas. Definido o profissional médico, a consulta foi marcada para após 30 dias. Um médico particular era sinal de bom atendimento e isso a fazia sentir-se segura. Foram longas as noites e intermináveis os dias de espera pela consulta, para iniciar o retorno a vida feliz. Vitrines de muitos shoppings foram visitadas e cada vestido que via se imaginava dentro dele. Era o sinal que esperava e que a levava a ter fé de que sonhos são possíveis de se realizar.
Trigésimo dia e lá estava Selena para a decantada consulta médica e início de um novo tempo. Hora marcada, mas existia a sensação de que alguma coisa podia acontecer e a consulta não se realizar, tal a ansiedade. Eis que a secretária chama por Selena e a conduz junto com a mãe e avó para a sala de atendimento. Para ela o Doutor tinha a face de sua felicidade. Com largo sorriso foi recebida pelo Dr. Kassa Níkuel de Incautos que logo foi falando ela estar bem clinicamente e que pela idade a resposta ao tratamento seria ótima.
Verificação da pressão arterial e algumas anotações e em poucos minutos elaborou a receita indicando a substância Sibutramina 16mg como o caminho a seguir para o processo de emagrecimento. Sem qualquer exame complementar e apenas uma dieta alimentar acompanhada de um comprimido do remédio prescrito ao dia, marcou nova consulta para 15 dias. Radiante, a família saiu alegre da consulta, menos a avó que pelos costumes de atendimento médicos antigos, sentia que algo ficou em falta.