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COLUNAS
Raphael Curvo - jornalista, advogado e comunicador
 
Descaso Médico (Parte III)
 
Data: 24/01/2012
 

 

Radiante, a família saiu alegre da consulta, menos a avó que pelos costumes de atendimento médicos antigos, sentia que algo ficou em falta. Selena mal consumiu o primeiro comprimido e já se sentia alguns kilos mais magra. O sonho estava se tornando uma realidade, uma feliz realidade.
 
Quinze dias depois e com cinco kilos a menos, Selena foi para uma nova consulta de acompanhamento do tratamento. Tal performance trouxe confiança ao Dr. Kassa Nikuel que manteve o referido medicamento com dosagem de um comprimido ao dia e nova consulta em vinte dias. A esperança de perda de novos cinco kilos já fazia Selena a sair para escolha de roupas novas. Algumas compras antecipadas com números menores já a enchiam de esperanças de um novo dia em pouco tempo. O relógio estava acelerado para a jovem que não notava que o ritmo, a velocidade da vida é ditado pelo ponteiro de segundos. Nem mais, nem menos, este é o velocímetro do viver, não há como alterar. Tirar o pé ou acelerar não resolve nada.
 
Passados os vinte dias para nova consulta, Selena retornou dois kilos e meio mais magra, porém com alguns acontecimentos clínicos. Sentia muitas tonturas, dores de cabeça, sensação de desmaios, falta de ar, dores no peito e uma enorme dificuldade para pegar no sono. Era um mal estar generalizado que a fazia sentir-se intranquila. O grau de alegria e da vontade de realizar seus sonhos de consumo para a nova vida começou a se arrefecer ante a possibilidade de que algo poderia não dar certo. A insegurança começou a expulsar a satisfação do tratamento. Apesar de toda a informação fornecida pela paciente, o Dr. Kassa Niquel, não tomou nenhuma providência na realização de exames mais específicos, mais investigativos e se resumiu em receitar apenas remédios para alívio das dores.
 
Sem uma solução medicamentosa ou de uma atitude para dar fim aos problemas de mal-estar da filha, Celina e avó começaram a se preocupar ante os sintomas que se agravavam a cada dia, inclusive com falta de ar sentida com freqüência por Selena. Dada a gravidade do caso, passados dois dias, foi feita ligação ao Dr. Kassa que, após escutar toda a explanação da jovem, disse que eram normais tais acontecimentos e receitou um dorflex. Os sintomas evoluíram nas horas seguintes e o Dr. Kassa, após suspender o medicamento Sibutramina 16mg, marcou nova consulta para dois dias. Com todo aquele mal estar, Selena já não pensava no peso perdido e as butiques passaram a se tornar algo meio sem sentido para sua vida. A sua nova meta era o seu bem estar e em retornar ao seu equilíbrio emocional.
 
Novas convulsões, intensa falta de ar, taquicardia acentuada anteciparam atendimento médico que se realizou em uma Unidade Básica De Saúde em situação de emergência. Sem qualquer investigação clínica e apesar de todo histórico, o médico da unidade pública de saúde, dentro do padrão quase normal dessas unidades, realizou apenas um aerosol com aplicação de soro e liberou a esperançosa Selena. Sim, cheia de esperanças, mas que tinham outro conteúdo, o de continuar viva. Em momento algum já não passava mais pela sua mente os sonhos de uma calça de menor número de cintura. A sua luta, o seu sonho, trocou de foco. O sonho agora era viver. Mesmo em desespero, percebia que os profissionais da saúde que a atenderam pareciam ter outro objetivo naquela unidade de saúde. Pedia ao destino que mudasse o rumo de sua vida das mãos daqueles doutores, indiferentes.
 
Selena, ainda jovem, ignorava as condições de atendimento exercida, na sua quase totalidade, pelos médicos que tem seus préstimos explorados o que afeta diretamente a qualidade da medicina oferecida. Não sabia que esta situação de exploração do serviço médico, principalmente pela administração pública, leva os profissionais da saúde a uma jornada de trabalho extenuante que os sobrecarregam e influenciam diretamente na prestação qualitativa de seus serviços. A remuneração não é compatível com responsabilidade de sua atividade. Daí a maratona de muitos plantões e outros empregos para atender suas necessidades básicas e que a profissão requer via especializações e aprimoramentos profissionais. É essa disponibilidade para plantão médico que pressiona os valores deste para baixo. (continua - parte final)
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