Somadas as maratonas plantonistas ao baixo salário e remuneração das empresas de saúde, ao ridículo honorário de R$ 3,00 por consulta médica paga pelo SUS além das péssimas condições de trabalho oferecida pela rede pública e particular na maioria dos hospitais é que canalizam milhares como Selena a cair nas mãos desses médicos esgotados física e mentalmente o que, obviamente e como consequência, reflete em péssima assistência médica aos pacientes. A jovem percebe então que a propaganda de governo de melhoria na saúde, não vai além das novas pinturas e móveis novos dos postos de atendimento.
Mal Selena chegou em casa e novamente os sintomas se manifestaram com maior intensidade ainda. Mãe e avó em desespero rumaram para a Santa Casa dos Sofredores, um dos hospitais de referência daquela rica cidade. Em situação de emergência foi recebida e medicada sem qualquer investigação clínica. Ao receber alta, ainda na sala de estar do hospital, nova e grave crise ocorreu. Intensa dor de cabeça, taquicardia, dores no peito, falta de ar e convulsão seguida de vômito. Tal quadro levou o médico do hospital a solicitar uma tomografia que nada acusou. Em razão, deu alta a menor.
Sem qualquer melhora considerável no seu estado de saúde, a jovem Selena foi no dia seguinte em busca do Dr. Kassa Nikuel que se recusou atendê-la. Em razão de vômitos provocados por mais uma convulsão dentro da sala de espera do consultório, não restou alternativa ao Dr. Kassa, senão, atendê-la. Preocupado com os acontecimentos, o médico encaminhou a jovem para ser avaliada por uma cardiologista de plantão em um posto de saúde.
Esta, diante de nova convulsão, retornou com a Selena para a Santa Casa dos Sofredores que, apesar de atendida por uma nova profissional, também nada investigou e ainda teve o desplante de dizer a avó que o problema da Selena era o estado psicológico da mãe Celina. Mais, deu alta dizendo que a jovem teria que se habituar com a falta de ar, já que nada foi diagnosticado. Apesar de constante dificuldade respiratória não ocorreu nenhuma investigação clínica nos pulmões.
Em desespero, Selena pediu que não lhe dessem alta porque sentia o agravamento do seu caso a cada hora ao que retrucou a doutora que ela estava abalada emocionalmente e precisava de tratamento psiquiátrico. Desesperadas pelo andar dos atendimentos, avó, mãe e filha não sabiam o que fazer ante o descaso e negligência da equipe médica. Às 18 horas Selena seguiu para casa, mesmo em péssimas condições de saúde.
Sentia que a vida e as pessoas a abandonavam e não conseguia encontrar alternativas para isso. Seus dezesseis anos não lhe tinham ensinado as lições de vida. Talvez tendo o belo corpo que tanto sonhava a sua história poderia ser outra. Uma conta bancária, quem sabe se não seria diferente. Mesmo assim, Selena lutava para viver. Buscava forças nas suas lembranças de reuniões com os amigos e a turma da escola. Lembrava-se do seu objetivo na sua vida futura: se formar em medicina. Seus futuros colegas a recusaram muito antes.
As 04 da madrugada, ante grave crise respiratória e dores generalizadas, novamente foi levada para o Posto de Saúde e o médico plantonista repetiu que o problema era psiquiátrico, ministrando soro e máscara de oxigênio. Alegou que já estivera por duas vezes na Santa Casa dos Sofredores e que nada foi constatado. Disse ainda que a Santa Casa dos Sofredores negou-se recebê-la novamente. Pediu licença e voltou para descansar no alojamento.
Sem forças para ficar em pé, permaneceu com a mãe e avó no salão de espera do Posto. Logo após, Selena entrou novamente em convulsão acompanhada de parada respiratória e diminuição de seus batimentos cardíacos. Atendida pelos funcionários da enfermaria, que não conseguiram lograr êxito em reanimá-la, Selena, a jovem sonhadora de 16 anos veio a falecer às 06 horas da manhã de tromboembolia pulmonar. A esperança do renascer para a vida transformou-se na certeza da morte após 48 dias. Celina, após meses, não suportando o vazio, se atirou nele em busca da filha.