Por Eliana da Silva Gomes
Vou começar este texto com um clichê: a Holanda é um país lindo, organizado, florido, amigável, de ruas limpas, cidades bucólicas e cosmopolitas, onde tudo funciona bem. Pois é, vamos fazer de conta que sim. No entanto, apesar de anos aqui, ainda não me acostumei com certas coisas, como a grosseria gratuita deste povo holandês. Porque vamos combinar, se eles são simpáticos e amáveis, eles conseguem ser grosseiros e agressivos na mesma proporção, ou porque não, em maior proporção. Resolvi ir ao centro da cidade. Tinha que resolver umas coisinhas por lá, umas comprinhas.
Tudo devidamente comprado, rumei para o terminal de ônibus para voltar para casa. Não era ainda o horário de pico, uns minutos depois das 4 da tarde.
O ônibus parou, desembarcaram poucas pessoas. Estava em frente da porta de trás aberta e, como tinha sacolas que já pesavam nos meus braços, embarquei por ali. Passei o meu cartão, o OVchipkaart, pelo leitor, escutei o bip, vi a luz verde e ok, me sentei no banco ali mesmo perto da porta.
O ônibus estava vazio, só uma menina embarcou. O motorista me viu muito bem, quando entrei e fiz todo o procedimento do cartão. Mesmo assim, ele não ficou contente. Veio na minha direção me passar um sabão! Sim!
Ele me disse num tom de voz super agressivo - imagine uma cena de uma criança levando bronca porque fez uma travessura - que eu deveria ter entrado pela porta da frente do ônibus. Quando fui tentar abrir a minha boca para dizer que já tinha feito o meu "check in" e que os aparelhos funcionam em todas as portas para embarque e desembarque, ele não me deixou falar. Disse-me que não interessava, que "o certo" é entrar pela porta da frente e pronto porque ele precisa controlar se todo mundo está passando o cartão.
Eu me calei, olhei bem para ele e disse apenas:
- Ok, dankjewel.
Iria falar o quê com uma pessoa que só faltou voar no meu pescoço? Se o ônibus estivesse lotado, se eu tivesse atropelado meio mundo para entrar enquanto elas desembarcavam e tentasse burlar o sistema, aí sim ele teria razão para me dar uma bronca. Não usou nenhuma palavra normal para tratar clientes do tipo: "por favor", "a senhora poderia...", "...nos ajudaria com nosso trabalho". Nada! E a gente aqui vive escutando por aí que temos que falar isso ou aquilo de um jeito porque se for de outro é "grosseiro".
Eu não entendi a fúria daquele motorista. Dá um nó na garganta e a gente se vê engolindo mais um sapo e, pior, sem motivo. Não há nada que indique nas plataformas que o embarque é obrigatório pela porta da frente. Não faz sentido algum. Se for, então, necessário este tipo de controle, é melhor voltar a vender a passagem no ônibus ou colocar de volta o "Strippenkaart" para eles carimbarem. Aí sim, eles voltam a ter controle absoluto.
Pior foi ver um menino (sobrinho, filho, irmão mais novo) entrar no ônibus, não passar cartão nenhum e nem ter comprado uma passagem. Sentou-se na frente, ao lado do motorista, e foi batendo papo com ele durante o percurso. Perguntinhas íntimas de "como foi na escola hoje", sabe?
Bom, nem preciso dizer que, assim que entrei em casa, entrei no site da empresa do ônibus e já registrei a minha reclamação.
Pelo menos, assim, meu holandês escrito não cai no desuso. Não deixei barato, não!
Se eu não pude falar, de escrever é que ele não vai conseguir me impedir.