No acampamento
Fernanda Veneu Lumb
Era abril e a previsão do tempo para a Semana Santa já parecia um aviso do oráculo de Delfos: sol, chuva, vento, frio e um pouco de neve. Ou uma obra de Vivaldi - as quatro estações em três dias. Temperatura? 6o C. Acampar com estas condições pode ser um presente de Páscoa para os apaixonados por camping, como meu noivo e a filha de 10 anos. Para mim, sem dúvida, foi um presente de grego.
Perto da fronteira da Holanda com a Alemanha, existe um camping. Um dos poucos que se aventuraram a abrir naquela época do ano, e com aquela previsão do tempo. Não é muito longe, cerca de uma hora e meia de viagem, partindo de Nieuw Vennep.
Saímos de casa com sol, enquanto eu torcia para que a previsão estivesse totalmente equivocada. Eu nunca tinha acampado na vida e não tinha a idéia exata da extensão do que um fim de semana como aqueles dentro de uma barraca poderia causar na minha psiquê – e na minha coluna, também.
Fazia frio, então levei todos os aparatos que vocês possam imaginar para me proteger: cachecol, meias e meia-calça de lã, meias soquete, botas, gorro... Quando chegamos ao local, eu mal consegui sair do carro. Quase saí rolando, pelo peso de tantas roupas sobrepostas.
O lugar é lindo! Mas a época... Realmente, uma semana ideal para pagar todos os pecados, cometidos, por cometer, pensados, desejados... Quem se achar em dívida com o Divino, pode colocar na conta desse acampamento, porque ninguém merece. Fica à escolha de vocês.
Chegamos e, claro, tinha muuuuuuuitas vagas. Quem iria acampar em uma semana como aquela? Só nós, né? O primeiro destino, depois de ter rolado do carro, foi a piscina de água quente. Saímos de lá debaixo de uma chuva pra lá de fria, em direção à barraca. Um colchão pro meu noivo, um para filha dele, dois para mim. Afinal, eu era a única representante do hemisfério Sul naquela barraca... E o saco de dormir, gente? Parecia um sarcófago! Eu já estava me sentindo a representante de Tutankamon! Mal conseguia me mexer. Dormir, ali? Só se fosse para sempre...
No meio da noite, aconteceu os que já acamparam provavelmente estavam esperando: chegou a hora de ir ao banheiro. Chovia tanto que ficou impossível sair da barraca. Do meio da noite em diante, não consegui dormir, “inspirada” pela quantidade de água caindo do lado de fora. De dentro do sarcófago aquecido, contei todos os pingos de chuva da noite. O resultado da contagem foi o fatorial de algum número com mais de três casas decimais.
A chuva só parou no dia seguinte, de manhã cedo. Quando saía da barraca para tomar banho, percebi algo muito sutil: havia gelo no chão! Gelo... Pensei que estava tendo algum pesadelo e fui então tomar banho, quando tive mais uma grata surpresa: o xampu quase congelou! Era já sexta-feira santa e eu nunca tinha pensado que se poderia sofrer tanto em um acampamento. Gregos, troianos, egípcios, judeus e cristãos – e o Vivaldi – que me desculpem, mas camping jamais.
Conclusão: eu amo a Holanda, mas eu odeio camping!
Até a próxima!
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